O hoje é uma beleza

Por: Luiz Cruz de Oliveira

– Eu acho que uma vida comprida como a nossa é uma bênção de Deus. Hoje eu posso olhar pra trás e enxergar tudo, posso entender as coisas, sou capaz de perdoar a mim mesmo e até os outros. Agora eu acho que tudo que a gente fez foi só molecagem, foi só arroubo de juventude. Hoje eu sou capaz de enxergar e ver quantos erros que a gente cometeu estupidamente. 
 
– Nisso eu acho que você tem razão. Quando a gente é novo, a gente é mais besta que bezerro novo, faz coisa que até Deus duvida. Depois de velho, a gente enxerga umas coisas que antes a gente nem via. 
 
– Eu já penso diferente, penso doutra maneira. A idade é uma bruxa feiticeira que rouba tudo da gente. É a maior ladrona que eu já vi. Tudo que presta, ela vai botando num saco e vai carregando. Começa com a saúde. Ela leva a saúde e aí o resto vai atrás, acaba tudo.
 
– Isso é verdade, acho que você tem razão. Quando a gente era novo, não tinha dificuldade... a gente passeava, dançava a noite inteira e ainda trabalhava direito no outro dia. 
 
– É verdade, isso é verdade. Agora você veja: as mulheres passam aí, quase em cima de nós, nem chamam a atenção, a gente nem olha.
 
– Olhar até que a gente olha, mas olhar pra quê? Só se for pra sentir mais saudade do tempo antigo, e passar raiva.
 
– Ah! Saudade boa...
 
– Mas, e o senhor, professor? O senhor não fala nada? O que que o senhor acha de ficar velho?
 
– Eu? Por enquanto eu não acho nada.  Sobre velhice vocês me perguntem daqui a uns trinta anos. Até lá, isso é assunto pra vocês, pra esse povo desocupado da Praça Barão.
 
 Levanto-me, deixo aquele bando de saudosistas, cada qual contando o que foi, viajando num tempo que imaginam dourado.
 
 Deixo-os sentados no banco e nas lembranças, atravesso a praça, namorando as mulheres que cruzam a alameda em sentido contrário.
 
 Namoro e aguardo, sem pressa, a passagem dos próximos alegres trinta anos. 
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 

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