Meio de Transporte

Por: Roberto de Paula Barbosa

O Takayoshi era um nikkei meio taciturno e exercia o cargo de Investigador de Cadastro na Agência Metropolitana Santana, em São Paulo, lá pelos idos de 1967. Para os não bancários e os mais novos, caso não saibam, Investigador de Cadastro era aquele funcionário que saia à cata de informações cadastrais dos clientes, através de contatos diretos com as fontes dadas como referências e, dependendo do cliente, de outras mais. O telefone era usado com raríssimas exceções, pois não funcionavam a contento e nem todos o possuíam. Quando o cliente necessitava de algum empréstimo, colhiam-se seus dados pessoais e lá ia o nosso Investigador saber se o cara era BHT (bom, honesto, trabalhador). 
 
Numa dessas andanças nosso personagem estava na Rua da Cantareira, perto do Mercado Municipal, quando começou a chover torrencialmente. Naquele tempo – e creio que ainda hoje – as chuvas inundavam a região, tendo em vista a grande quantidade de detritos que entupiam os bueiros, ao invés de escoar, as águas voltavam em grande quantidade. Pois bem, nosso colega procurou refúgio em um bar, onde já havia diversos “chapas” bebericando cachaças e rabos-de-galo, nem um pouco preocupados com o dilúvio que se avizinhava. Mas o mesmo não acontecia com nosso amigo, vestindo um terno escuro, camisa branca, gravata sóbria e sapatos sociais pretos, cabelos lisos bem penteados e a indefectível pastinha debaixo do braço. Sua preocupação era visível, pois a água já tinha ultrapassado a linha da calçada e começava a entrar no estabelecimento. Alguns freqüentadores subiram nas cadeiras e outros se sentavam sobre o balcão, que separava o bar em duas metades. Nosso amigo, evitando ficar com os pés molhados, também se aboletou sobre uma cadeira, mas a água continuou a subir e quando estava prestes a atingi-lo, pulou também sobre o balcão, ficando num cantinho junto à parede. A água foi subindo, subindo, quando um negralhão espadaúdo, com quase dois metros de altura, vendo o mirrado japonês apavorado, perguntou-lhe:
 
- Ô Japa, ‘ocê’ quer dar vinte ‘paus’, eu te levo até lá na Avenida Prestes Maia?
 
A resposta foi imediata:
 
- Tá’qui!
 
Nosso amigo tirou os sapatos e as meias, arregaçou a barra das calças, ajeitou a pastinha sob o braço e, do alto de seus um metro e sessenta, encavalgou o imenso pescoço de sua montaria, que saiu chafurdando a água na altura do peito, levando-o a salvo como prometido.
 
Quando, mais calmo, na Agência, acabou de narrar o acontecido a uma roda de colegas, que mal seguravam o riso, o Subgerente perguntou-lhe:
 
- Você vai colocar no seu relatório esse gasto como despesas de transporte?
 
 
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor
 
 

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