Bobando...

Por: Maria Luiza Salomão

A vida é a arte dos encontros...embora haja tantos desencontros pela vida. Vinicius de Moraes morreu dia 9 de julho de 1980. Diz Chico Buarque, em um belo documentário sobre o poetinha, que ele não sobreviveria nos tempos (práticos, violentos, apressados) de hoje. 
 
Sua casa era engraçada, não tinha paredes, nem porta, nem penico: os amigos entravam e saíam quando queriam, levavam e deixavam o que podiam. 
 
Talvez a casa engraçada não tivesse mesmo chão, nem teto, porque seu amor era infinito. Talvez a casa do poeta tivesse tudo, mesmo não tendo nada. 
 
O que é que o poeta tem ? 
 
- Tem a imensidão de seu acolhimento, tão recolhido que ninguém vê, ninguém toca, ninguém ouve, a não ser que o encontro aconteça em outra dimensão. 
 
- Tem as fronteiras nebulosas de sua imaginação. Qualquer um acompanha o poeta, homem criança mulher, não há barreiras a não ser as contra naturais.
 
- Tem um quê de tristeza, porque a vida não é mole não. Vinicius casou-se nove vezes e as mulheres que lhe despertaram paixão trouxeram muitas dores e sofrimentos, além do prazer e da liberdade. “Quem nunca sentiu uma paixão nunca vai ser nada não”. Ele tinha a coragem de ir até o fim.
 
 O que o poeta tem não é de comer, sentar, pôr no banco, guiar, não é de acumular em cofres, em feitos, em fatos. O poeta é. Simplesmente. E, poeta sendo, cria o que ninguém tem, nem ele próprio terá.
 
Dizem todos que o conheceram que Vinicius de Moraes viveu como poeta. 
 
Como se vive como poeta? Ele, o cujo, saberia dizer como? 
 
Eu li, certa vez, que o poeta morreu tomando banho, sozinho, de madrugada, quando o amigo Toquinho ali esteve e disse que voltava. Toquinho voltou, mas o poeta se foi. 
 
Dissolveu-se como espuma, virou perfume de alma lavada com gosto. 
 
Um perfume que exala brasileiramente da alma de todos nós. Ninguém esquece: “infinito enquanto dure”. “as feias que me perdoem”, “de tudo, meu amor, serei atento...”; “são demais os perigos desta vida para quem tem paixão”; “de repente, não mais que de repente.” “meu tempo é quando”; “filhos...filhos? melhor não tê-los!”, “a anti-rosa atômica sem cor sem perfume sem rosa sem nada”. 
 
Perto da casa engraçada, agora, faço a minha, com muito esmero, na sua rua - Rua dos Bobos, número zero. Vizinhamente. Doida para fazer uma visita, para aprender a bobar direito nessa vida que é uma só.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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