Raízes e seus ecos

Por: Eny Miranda

Hoje os bem-te-vis chegaram primeiro. 
 
Todos os dias os emplumados vêm dividir a ração de nosso cãozinho. Isso mesmo: dividir a ração dele, e não com ele, já que, se não são de algum modo tolhidos, costumam deixar a vasilha limpa. Geralmente - nesta ordem -, as pombas inauguram a comilança, engolindo os grãos inteiros, um a um, rápida e egoisticamente, repelindo, às bicadas, qualquer outro pretendente ao repasto. Depois, aparecem os pardais, que beliscam várias vezes cada grãozinho, espalhando a maioria deles fora do comedouro, num raio de quase meio metro: farelos, bolinhas, ossinhos, coraçõezinhos coloridos... Finalmente, para rematar o banquete, surgem os bem-te-vis.
 
À exceção das pombas, que me parecem demasiado arrogantes, gosto de ver chegarem todas essas criaturas aladas. Vêm aos pares, ou aos trios, de peito aberto. Pousam no muro e avaliam o ambiente. Olhos muito acesos, tombam a cabecinha, como normalmente fazem os pássaros quando querem perscrutar algo, e observam os potes: o de ração e o de água. Então, em voo curto, pousam no varal, dão outra espiadela no entorno e, finalmente, descem ao alvo. Em movimentos rápidos, quase assustados, iniciam, pulsáteis, a refeição. Se percebem um ruído estranho, ouve-se o bater de asas: algumas delas se vão, mas outras se afastam só um pouco, aos pulinhos ou aos passinhos miúdos, e voltam ao pote, familiarizadas com a rotina da casa.
 
Nesta manhã, como disse, os bem-te-vis inverteram a ordem de chegada. Presenças ordinariamente vespertinas (apesar da fama de madrugadores), hoje abriram nosso dia. O canto, inconfundível expressão de registro, precedeu-os, como sempre, claro e bem próximo, sublinhando sua presença. Ah, são os meus visitantes preferidos! Dentre os comensais, os peitos amarelos, de longe, têm a minha predileção. A cabeça, com a indefectível listra branca, parece sempre erguida, a exibir a plumagem ventral de sol nascente; o bico, mais longo do que o dos outros, torna marcante o seu perfil. A altivez está registrada em toda a sua postura. Não parecem exageradamente assustadiços, como os outros, mas cautelosos. Apesar do atrevimento (não se intimidam com a minha presença), decididamente me encantam.
 
- Bem-te-vi! Disseram eles, desde o muro.
 
- Bem-te-vi! Respondi-lhes eu, embevecida, à mesa posta, com uma perfumada espiga de milho nas mãos.
 
Bem-te-vi! Mais uma vez afirmaram, sem receio. E bateram as asas, vigorosos (eram dois): não em direção ao costumeiro pote, mas a mim, deliberadamente, varando a janela, decididos, olhos postos na espiga amanteigada, bicos adiante, em riste, sem a menor cerimônia. Imediatamente me vem à lembrança o nome da família a que pertencem: Tiranídeos.
 
Deus! Por onde andarão minhas asas?
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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