Sabedoria de bar

Por: Everton de Paula

- Tem pouca banana pra muitos macacos.
 
- Ué, essa eu não entendi!
 
- Orra, meu, tá na cara! Olha aí a conjuntura do país: pouca cadeia para muito ladrão, pouca oferta de serviço para muito trabalhador, pouco serviço para muito ministério, pouca vergonha na cara para muita corrupção.  Daí que tem pouca banana...
 
- Tá, tá, já entendi. Mas essa é fácil. Deixa eu tomar só mais um golezinho de chope que lhe mostro o que é sabedoria. Ahhh – lá vai:  a gente temos que se preocuparmos com o probrema do aunafabetismo.
 
- Cleodésio, me desculpe a sinceridade, mas ou a bebida anda fazendo mal pra sua cuca ou você deixou a escola muito cedo...
 
- Num tô entendendo!
 
- Quem não está entendendo sou eu, Cleo. Você me fala do analfabetismo e comete numa só frase cinco erros de português?
 
- Ai, ai, ai, sutileza é só pra quem pode, mesmo. Eu critiquei falando como o criticado...
 
- Agora você vem com bazófia...
 
- Que que é bazófia?
 
- É quando você pega e fala assim...
 
- Pega o quê?
 
- Como pega o quê?
 
- Você quem disse que é quando eu pego... Pego o quê?
 
- Você está bêbado!
 
- Falando nisso... Ei, psiu, garçom, mais dois, com colarinho...
 
- Como se chama uma mulher que sabe onde seu marido está todas as noites?
 
- É uma pergunta pra mim?
 
- Ã ã...
 
- Hummm... Clarividente...
 
- Não, cara, é a viúva...KKKKKKKKKK !
 
O Cleodésio ficou ali firme, com olho de bagre, com a mão no queixo, não entendendo o porquê da risada.
 
- Era uma piada ou frase de efeito?
 
- Você não entendeu?
 
- Eu estou aqui me esforçando com alta filosofia e você me vem com piada de salão. Estamos tervi... tergi... revirgedando...
 
- É regurgitando...
 
- ...?
 
- Agora é piada, meu!
 
- Muito da sem graça. Acabou a brincadeira. Quero ir embora...
 
- Não, vamos para uma disputa de frases... Nem é preciso entender, está bem assim?
 
- Como funciona?
 
- Eu falo uma frase de efeito e você fala outra em seguida. Aquele que demorar cinco segundos pra dizer uma, paga a rodada de chope...
 
- E quem vai marcar o tempo? Eu não tô mais nem enxergando o relógio.,.
 
- O garçom. Ei, garçom, venha até aqui...
 
O garçom solícito, pensando na gorjeta, aproximou-se. Os dois amigos explicaram confusamente e por meio de muitos gestos o que queriam. Acho que o garçom entendeu, porque ele empinou o nariz, deu meia volta e se retirou com a dignidade de um lorde. Não se prestava a idiotices de bêbados.
 
Cleodésio exclamou:
 
- Cara chato, meu, metido a besta...
 
- Pensa que é o gerentão... Mas vamos lá, a gente conta até cinco. Vou começar, se prepara: Era tão racista que bebia Black & White em copos separados...
 
- Humm – Sou fã das escurinhas, porque Deus... crioulas.
 
- Preconceito, num vale...
 
- Ó o tempo passando... três, quatro...
 
- Tá : Levantarei os caídos e oprimirei os grandes. Autor: Sutiã!
 
- Tá o fino, meu. Acho que estamos fazendo flolcore...
 
- Quatro...
 
- Aquele cara é “papo tijolo”: quadrado e cheio de furo.
 
- Prefiro ser um pai quadrado do que ver minha filha redonda.
 
- Boa essa. Lá vai outra: Quando estava na faculdade, eu era o futuro do Brasil. Quando saí, me tornei um problema social.
 
- Muito atual e profunda. Escuta essa: a minha mãe era uma mulher que nasceu analfabeta...
 
- Quem disse essa bobagem?
 
- O Lula, num discurso na reunião do partido, ou para uns miseráveis do Nordeste...
 
Cleodésio deu um tapa na mesa, levantou-se e esbravejou:
 
- Num fala mal do Lula, não. E nem critica meu curingão, o timão da fiel. Você tá apelando pras inguinorança... – Disse e sentou-se amuado.
 
Já estavam sem criatividade.
 
- Quem paga a conta?
 
- Lá vem você com problema de dinheiro. O dinheiro escraviza as pessoas, principalmente as que não o têm.
 
- Dinheiro é tudo, meu. Só que eu ando tão endividado que se eu chamar minha mulher de “meu bem” o banco toma ela de mim!
 
- Você não respondeu. Quem paga a conta?
 
- Você m’impresta cinquentinha?
 
- Ah, quem empresta, adeus... Quer saber, eu pago. E se o nosso futuro depender dos nossos sonhos, então vamos dormir.
 
O garçom suspirou aliviado
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras
 

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