O Centenário do ‘Comércio da Franca’ (3)

Por: Chiachiri Filho

A composição e a impressão de um jornal era, sem dúvida, uma tarefa muito difícil. Daí o fato dos jornais não circularem diariamente e o seu tamanho limitado a 4 ou 6 páginas. A confecção de um jornal, até pelo menos os anos 40 do século XX era uma tarefa artesanal, pesada e penosa.
 
Na composição, pinçavam-se, um a um os tipos de chumbo, gravados com as respectivas letras, que iam sendo dispostos no componedor, espécie de calha que era segurada pela mão do tipógrafo, e que servia para a formação das palavras, das frases, dos parágrafos, enfim, dos textos completos. Na montagem da página, distribuíam-se os textos já previamente formatados (no componedor) os quais eram envolvidos por uma moldura de ferro de modo a formar um todo sólido e coeso. Feita a prova e corrigidos os eventuais erros, a página era levada para a impressão.
 
A gravação no papel fazia-se através das antigas prensas manuais que, operada pacienciosamente pelo impressor, ia soltando uma a uma as folhas impressas do jornal.
 
Mais tarde, com a utilização da energia elétrica (instalada em Franca em 1904) e dos motores, as “modernas” máquinas impressoras como as Minerva e as Marinnoni, por exemplo deram extraordinária rapidez às impressões e facilitaram enormemente os trabalhos das tipografias.
 
Nas novas máquinas impressoras (chamadas planas ou auto-planas) um cilindro girava com a folha de papel a ser impressa presa em suas garras e, ao encontrar a chapa (denominação dada à página montada com os títulos, textos e clichês) girava em torno dela, lançando a folha de papel em direção oposta. Só bem mais tarde (lá pelos anos de 1960), é que “O Comércio da Franca”, sob a direção de Alfredo Henrique Costa, irá utilizar-se de uma impressora rotativa em que a chapa de chumbo era acoplada ao próprio cilindro giratório. Para facilitar ainda mais, a rotativa intercalava, dobrava e contava os exemplares. 
 
As máquinas de escrever (Remington ou Bourrougts) viriam amenizar a labuta dos redatores que, na falta delas, escrevia os seus textos à mão. Contudo, na composição gráfica do jornal, a tarefa continuava sendo árdua e demorada. Uma após outra as letrinhas de chumbo eram pacienciosamente colocadas no componedor, instrumento de ferro em forma de uma canaleta onde iam sendo acomodados as linhas e os textos que, posteriormente, seriam levados para o devido encaixe na página. Depois de usadas, seriam distribuídas nas enormes gavetas de madeira compartimentadas. A máquina de compor, a linotipo, representará um grande avanço tecnológico para as oficinas tipográficas da época. Imensas e pesadas, as linotipos fundiam as letras (com base nas matrizes) em lingotes de chumbo (que eram derretidos, resfriados, aparados e dimensionados de acordo com as medidas das colunas do jornal) os quais, uma vez usados, seriam novamente derretidos e reutilizados em nova composição. Em Franca, o “DIÁRIO DA TARDE” foi o primeiro jornal a adquirir uma linotipo, sem a qual ele não poderia manter a sua circulação diária. A máquina foi adquirida da firma Linotypo do Brasil S/A (estabelecida no Rio de Janeiro). A linotipo da marca Mergentale havia sido reconstruída pela referida firma e entregue em perfeito uso e sob todas as garantias.
 
O valor total da Linotipo e mais os seus “pertences e accessórios” era de 65 contos de réis (o suficiente para se comprar um belo automóvel da época) os quais, descontada a entrada de 10 contos, seriam pagos em 58 prestações mensais. 
 
As impressoras auto-planas e as linotipos representaram um grande avanço nas artes gráficas. Os jornais puderam ser confeccionados com muito maior rapidez e sua tiragem aumentada significativamente.
 
As fotografias eram estampadas nas páginas dos jornais através dos “clichês”, placas de zinco que tinham pedaços de madeira em forma de quadrado ou retângulo como suporte para a impressão. Eram feitos nas clicherias, um setor que funcionava dentro ou fora da unidade jornalística. Na falta de clichês, chegava-se usar a xilogravura. Antes das modernas formas de reprodução fotográfica para jornais e revistas, chegou-se até a adotar clichês de borracha.
 
Os jornais da época podiam ser impressos em cores. Porém, o trabalho era muito grande (exigindo-se várias impressões ) e o resultado não era tão animador.
 
Com José Corrêa Neves, a partir de 1973, o jornalismo francano experimenta uma verdadeira revolução. As máquinas de compor passam a ser outras. Com a impressora “Goss” , adota-se o processo “off-set” e o jornal entra na era da eletrônica.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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