Societatis magistrorum

Por: Everton de Paula

O mais antigo documento maçônico conhecido é italiano, da Emilia Romana, região situada no norte da Itália, hoje com mais de 4 milhões de habitantes, 22 mil km2, cuja capital é Bolonha. Este documento (um estatuto registrado em ata) é datado de 1248 d.C. Sugere ser a certidão de nascimento da maçonaria operativa. Foi redigido em latim.
 
• Há exatos 767 anos, a maçonaria, por estatuto, tinha as seguintes características:
• a sociedade maçônica era católica;
• as reuniões eram realizadas na igreja de São Pedro, atualmente catedral de Bolonha, hoje dedicada a são Petrônio;
• quando não realizadas nesta igreja, as reuniões se davam na casa do bispo da diocese;
• a instituição era conhecida como Societatis Magistrorum (Sociedade dos Mestres);
• as reuniões eram registradas em atas;
• as missas na igreja de são Pedro contavam obrigatoriamente com a presença de membros desta sociedade, que colaboravam com a igreja por meio de doação de moedas (dinheiro) e velas;
• a sociedade professava a crença em um Deus único, criador nunca criado, de infinita misericórdia para com os homens e as coisas criadas;
• o seu estatuto apresentava 61 artigos, podendo ser hoje consultado em sites eletrônicos de busca.
 
Este documento foi redigido por um notário, por ordem do magistrado (prefeito) da cidade de Bolonha, Bonifacii De Carlo, no dia 8 de agosto de 1248. Atualmente faz parte do acervo do Arquivo de Estado de Bolonha. Lendo-o, encontram-se aqui e ali alusões a rituais e conceitos filosóficos que coincidem com a contemporaneidade maçônica.
 
Sucede um fato: Tomás de Aquino (1225-1274), filósofo e teólogo medieval, chamado Doctor Angelicus ou Princeps Scholasticorum (Primeiro dos Escolásticos), proclamado doutor da igreja em 1567, foi contemporâneo do provável início da sociedade maçônica, embora não tenha pertencido à Societatis Magistrorum.
 
Tomás de Aquino formula cinco argumentos para provar a existência de Deus:
 
I – se tudo se move, o que é incontestável, o que se move é movido por outro motor; se este motor, por sua vez, é movido por outro motor, precisará de um motor que o mova, e assim indefinidamente, o que é impossível se não houver um primeiro motor imóvel, que move sem ser movido, que é Deus.
II – Há uma série de causas e efeitos ao mesmo tempo; não é possível remontar indefinidamente na série das causas; logo, há uma causa primeira, não causada, que é Deus.
III – Todos os seres que conhecemos são finitos e contingentes. Ora, se são todos contingentes e finitos, em determinado tempo deixariam todos de ser e nada existiria, o que é absurdo. Logo, os seres contingentes, para o seu continuum (sustentabilidade), implicam o ser causador da continuidade, o ser necessário, não casual, que é Deus.
IV – Os seres finitos realizam determinados graus de virtude, mas nenhum atinge a perfeição absoluta. Logo, há um ser sumamente perfeito, que causa todas as faces da perfeição, que é Deus.
V – A ordem do mundo implica que os seres tendam todos para um fim. Não em virtude de um acaso, mas da inteligência que os dirige. Logo, há um ser inteligente que ordena a natureza e a encaminha para esse fim; esse ser inteligente é Deus.
 
A provável confraria maçônica de então e a Igreja comungavam a mesma fé na primeira metade do século XIII, conforme se observa nas Actas. As pretensas provas tomistas da existência de Deus coincidiam com as professadas pela Societatis Magistrorum, conforme seu estatuto. Em caso contrário, não haveria a concórdia entre ambas as instituições, o que se atesta na Carta de Bolonha, exposta à visitação sob licença especial das autoridades italianas. Resta saber se as “provas” de Tomás de Aquino são atualmente aceitas pela Igreja e Maçonaria, em sua integralidade. Se positiva a resposta, não haveria aí uma porta aberta à reflexão e pesquisas?
 
A separação entre Maçonaria e Igreja Católica ocorreria mais tarde, por razões que merecem outro estudo e relato.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras
 

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