O Centenário do ‘Comércio’ (epílogo)

Por: Chiachiri Filho

Sob a propriedade e direção de José de Melo, os primeiros exemplares do “Comércio da Franca” começam a circular em 30 de junho de 1915. Vespertino, circulava às quartas-feiras e sua assinatura anual era de 8$000. O jornal já ostentava em seu cabeçalho o seu grande objetivo que era o da defesa dos interesses do Comércio, Lavoura, Indústria e Artes. No editorial de apresentação do novo jornal, José de Melo define claramente os seus propósitos.
 
‘Resolvendo a publicação deste jornal, temos em mira o firme propósito de contribuir para o engrandecimento de nossa terra.
 
Dedicamo-lo ao Comércio, à Lavoura, à Indústria, às Artes, para que, como verdadeiro porta-voz dos interesses dessas classes, seja elle o sólido liame na completa expansão progressista, na harmonia que deve reinar entre tão poderosos ramos da actividade humana.’
 
Sobre o relacionamento do jornal com seus colegas de imprensa, esclarece o articulista:
 
‘Nossa folha se propõe a colaborar com os bons collegas de imprensa na propaganda cerrada de nosso Município, que caminha a passos de gigante para o progresso seguro e certo.’
 
O desenvolvimento da cidade da Franca nos inícios do século XX propiciava o surgimento dos periódicos. Apesar das instabilidades da economia cafeeira, o comércio, a lavoura e a indústria do município conseguiam dar-lhes a devida sustentação. Neste sentido, escreve o jornalista:
 
‘A crise que atravessamos veio pôr em grande destaque a solidez do seu commercio, o poder productor da lavoura, o desenvolvimento da industria, que são os elementos básicos das forças vivas no laborioso município da Franca. A Franca, mesmo distante do grande centro paulista, vai marchando na vanguarda do progresso e merecendo, sem favor, os foros da terra civilizada, rica e de grande futuro. Nosso jornal lhe emprestará o melhor dos seus esforços, tornando-se carinhoso e dedicado na defesa das idéas, que de algum modo, possam contribuir para o maior realce moral, intellectual ou material deste abençoado torrão.’
 
Continuando, o editorialista propõe o distanciamento do jornal das questões de caráter pessoal:
 
‘Procuraremos evitar as discussões infructiferas, fugiremos às dissenções pessoaes, escolhos em que, geralmente, sossobram os jornaes do interior. Só daremos guarida a questões particularizadas quando o indivíduo tenha contribuído para o engrandecimento ou depreciação da collectividade.’
 
Embora distante das questões pessoais o jornal por outro lado, colocava-se bem próximo dos poderes constituídos conforme o trecho abaixo:
 
‘Em matéria política, encaminharemos os nossos esforços ao lado dos poderes constituídos no Município, no Estado e na União.
 
As nossas colunas serão franqueadas aos bem intencionados, sem entretanto, com isso, tornarmo-nos solidarios com elles nas suas apreciações ou idéas.
 
Finalmente, não mediremos sacrifícios toda vez que se tratar de verificar a Justiça, de realçar o Direito, de engalanar o Mérito. registraremos todos os actos dignos e recommenda-lo-hemos aos nossos leitores como estimulo para imitação.’
 
Encerrando o editorial que continha o programa do novo vespertino hebdomadário, José de Melo concluía:
 
‘Eis pallidamente nosso programa.
 
Árdua é por certo a tarefa a que nos afrontamos, mas, por isso mesmo, nos devem ser desculpados os desvios que involuntariamente comettermos, mesmo porque ‘Errare humanum est.
 
Bem intencionados, como estamos, no firme propósito de prestar algum serviço à população ledora, entregamo-lhe hoje o nosso jornal e esperamos merecer-lhe o indispensável apoio moral e material’.
 
 
COMÉRCIO SOB NOVA DIREÇÃO
 
Em 1920, o Jornal Comércio da Franca passa a ser Vicente Paiva que, à época, assinava como seu redator-chefe. Funcionava à Praça Nossa Senhora da Conceição, nº 49. Recebia suas correspondências na Caixa Postal nº 50 e atendia aos chamados pelo telefone nº 13. Não obstante, continuava no labor de registrar os acontecimentos relativos ao Município e Região.
 
Com a morte do Dr. Júlio Cardoso, abria-se uma vaga na Assembléia Legislativa do Estado e O COMÉRCIO posicionava-se à favor do Coronel André Martins:
 
‘Agita-se, presentemente, em todo 10º Districto, a questão da escolha de um candidato de prestigio que deverá occupar o logar deixado com a morte do nosso saudoso representante no Congresso Legislativo.
 
O Jornal do COMÉRCIO e A PLATÉA, diários da capital, publicaram algumas notas referentes a essa questão política indicando, para isso, o nome do Dr. Antonio Olympio, advogado residente em Barretos.
 
O preenchimento da referida vaga é de summa importância para nós, francanos, pois, não podemos ficar indifferentes ante o pleito que se realizara em breve, sem suffragarmos as urnas o nome de um candidato nosso, legitimamente nosso, e que saiba pugnar pelos nossos interesses. E esse candidato já foi indicado pelo nosso Directorio Político: é o Cel. André Martins, cidadão muito acatado em todo 10º districto, pelo seu grande tirocínio político, pelo enorme prestígio e pelo seu incontestável tino de criterioso dirigente.
 
Ao que se diz por ahi, e com muito fundamento, a candidatura do cel. André Martins já conta com o apoio de Igarapava, Orlândia, Ribeirão Preto, Sapucay, Ituverava, Batataes e muitos outros municípios que lhe garantem a victoria.’
 
No mesmo exemplar do dia 8 de julho de 1920, o Dr. Mário de Vilhena reverbera contra os agnósticos e descrentes daqueles dias:
 
‘... que, oficialmente atheus, incréus correm à sorrealva à consulta dos astrólogos, das cartomantes, dos feiticeiros...’
 
Jornalista, comerciante, músico e boêmio. Essa poderia ser uma definição de Vicente. Ele era também proprietário da Casa Paiva que funcionava no mesmo endereço, isto é, à Praça Nossa Senhora da Conceição, nº 49. Usava as páginas do jornal para anunciar os produtos de seu estabelecimento tais como livros, papéis, etc.
 
Músico, participou da FURIOSA. Pescador e caçador, era apelidado de ‘Cordeiro’ por causa da sua mansidão e companheirismo.
 
Rico, aceitou os revezes da fortuna sem perder a dignidade e a espiritualidade (quando a fortuna lhe faltou).
 
O COMÉRCIO DA FRANCA em seu nº 2309 de ano XXXVI, registrava em 3 de maio de 1951, em sua coluna necrológica:
 
“Sr. VICENTE PAIVA: faleceu nesta cidade na madrugada do dia 1º deste mês, o benquisto cidadão Vicente Paiva.
 
O extinto se encontrava ligado à vida desta folha, pois que, em 1920, foi diretor-proprietário do COMÉRCIO, até junho de 1922, quando passou para as mãos de novos proprietários. Em nossos arquivos se encontram traços marcantes da vida de Vicente Paiva dentro desta casa e eles falam com clareza da sua atuação em prol de uma Franca sempre maior.
 
Nestes últimos tempos vinha, com acerto, desempenhando as funções de diretor-zelador do Albergue Noturno de Franca, onde deu os últimos dias de seu trabalho proveitoso e fecundo para aquela casa de assistência social tivesse a correspondência de suas finalidades e o cumprimento de seu humanitário programa.
 
Despedindo-se do amigo e companheiro, no momento de sair o ataúde, usaram da palavra as seguintes pessoas: Sr. Arnulfo Lima, que falou em nome da família espírita de Franca; Sr. José Russo, em nome da Casa de Saúde Alan Kardek e Centro Judas Iscariotes, instituições estas que o extinto fazia parte como destacado diretor; em nome das Lojas Maçônicas Independência e Amor à Virtude, falou o Prof. Nelson Camargo....’
 
Em 1922, o “Comércio da Franca” passa para as mãos de Ricardo Pucci. Em 1955, o Dr. Alfredo Henrique Costa assume a direção do jornal que, por esta ocasião, passa a ser diário.
 
Em 1973, Após Alfredo Costa, o jornalista José Corrêa Neves e o empresário Delcides Essado assumem a propriedade do matutino.
 
Sob sua direção, o jornal passa por uma verdadeira revolução tecnológica com a constante aquisição de máquinas e equipamentos de última geração. Assim, pela sua qualidade técnica e de conteúdo, o jornal torna-se um dos principais órgãos da imprensa interiorana.
 
Como já dissemos, o COMÉRCIO DA FRANCA é o grande repositório dos últimos 100 anos de nosso passado, passado este que permanecerá para sempre registrado em letras de forma nas manchetes e textos do grande jornal.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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