Música para celebrar com a população

Por: Sônia Machiavelli

Robert Browning, poeta inglês do século XIX, disse que “o homem não pode obter verdade mais verdadeira/ do que a que vem da música”. Sua mulher, poeta também, Elizabeth Browning, versejou: “Quem ouve música/ sente sua solidão/ de repente povoada”. Cervantes, pela voz de Dom Quixote, fez questão de frisar que “onde há música, não pode haver coisa má”. Shakespeare, através da fala do personagem Lourenço, em O mercador de Veneza, avisou: “O homem que não traz música dentro de si,/ Ou que não se comove ao ouvir seus doces sons,/ Foi talhado para as traições, enganos e roubos;/ Os movimentos de sua mente são pesados como a noite/ e suas afeições escuras como o Érebo/ Que não se confie em tal homem!” O Érebo, entre os antigos, era um dos nomes do Inferno. 
 
Arte de manifestar os afetos da alma através do som, a música não tem o mesmo sentido para todos que a ouvem. Cada indivíduo usa a suas próprias emotividade, imaginação, lembranças e raízes culturais para dar a ela um sentido que lhe pareça apropriado. É capaz, pelo milagre da memória afetiva, de ressuscitar um mundo, como aquela sonata de Vinteuil, na verdade de Saint-Saens, que Proust ouviu e lhe trouxe inteira, como o chá de tília, a pequena Combray e a multidão de gentes e afetos que fizeram parte de sua vida recontada no romance Em busca do tempo perdido.
 
Por tudo isso, desde muito tempo, quando há mais de um ano começamos a pensar numa comemoração para o centenário do Comércio, dentre as várias ideias que foram surgindo, a sugerida por Junior ganhou força e se mostrou inabalável apesar dos impedimentos diversos que se interpuseram. Nada foi fácil e, talvez por isso mesmo, o resultado final revelou-se muito gratificante, já que vencer sem enfrentar perigos é triunfar sem glória. Para o bom sucesso de nosso sonho concorreu decisivamente o empenho da jornalista Denise Silva e sua equipe da Crazz. 
 
Queríamos músicos de Franca no jantar que aconteceria sábado, na sede; queríamos também música na praça pública, para todos os que quisessem ouvi-la. Música para nós seria essencial na comemoração dos cem anos de nossa paixão, o jornal Comércio da Franca.
 
Atendendo ao nosso pedido, responderam afirmativamente ao convite para participação no jantar os músicos Benny Chagas, Téti Brigagão, Paula de Nicola, Zick e Matheus; Banda A3 e Desirê. Eles revelaram mais uma vez como são verdadeiras as reiteradas menções, no próprio Comércio e desde a sua fundação, à excelência dos músicos francanos- alguns, não apenas executores e intérpretes, também compositores que brilham com suas criações. 
 
Já o público presente na praça Nossa Senhora da Conceição na noite de domingo, teve a oportunidade de ouvir música executada por profissionais reconhecidos pela excelência de suas apresentações. O já célebre maestro Nazir Bittar, à frente da Orquestra Sinfônica de Franca, fez a praça silenciar e aplaudir a cada número: All I ask of you, dueto de O Fantasma da Ópera; Por una cabeza, tango icônico de Carlos Gardel; Schindler List, tema do filme homônimo; Nessun dorma, ária do último ato da ópera Turandot, de Giácomo Puccini. A cena lírica também rendeu aplausos entusiamados a Priscila Cubero e Rafael Stein. Encerrando a primeira parte, subiram ao palco as irmãs Letícia e Paula de Nicola, o DJ Alex Atman e alunas do Raquel e Camila Ballet, que acenderam ainda mais o público com Firework, de Katy Perry. Múltiplos bravos para cada número. E no balanço ensejado pela pausa entre a primeira e segunda parte, uma constatação inequívoca: o povo francano ama a Sinfônica de Franca e seu maestro; ambos já são patrimônios da cidade por direito de conquista.
 
Chegou então a vez de Ana Cañas, jovem cantora paulistana que simplesmente arrasou com voz, performance, personalidade, presença cênica. E versatilidade na escolha do repertório, que, se incluía rock pauleira, mostrava, entre outras, também música de Chico Buarque de Holanda e canção francesa de Edith Piaf. Esta última, La vie en rose, cantada à capela, seguiu-se a um breve relato que a artista fez da vida de sua avó. Depois de ver os pais assassinados pelo regime franquista, ela fugiu da Espanha com os irmãos a pé, pelos Pireneus, pleno inverno. Cruzou a fronteira e durante dez anos morou na França, até que as agruras da Segunda Guerra a trouxeram ao Brasil. Ana Cañas contou o quanto esta avó lhe foi inspiradora, pois com tanto sofrimento, jamais reclamava da vida, e ainda cantava, e sempre La vie en rose, que é quase um hino ao amor, à existência. São momentos assim, onde a natureza humana se revela em toda sua verdade, de maneira simples, direta, genuína, que percebemos como nós podemos ser fortes, resistentes, imbatíveis em nossa vontade de viver. Cantar é também uma forma de resistir às intempéries.
 
Do set list da cantora faziam parte: o poema Urubu Rei, com o qual abriu o show; Será que você me ama?; Todas as cores; Traidor; Rock’n’roll; L’amour; Pra você guardei o amor; Luz antiga; Blues da piedade; Diabo; e outro poema - Mulher o suficiente. 
 
E foi cantando música autoral, Te ver feliz, inspirada no pai que era alcoólatra e morreu em 2010, que Ana Cañas caminhou para o final de seu show, concedendo atenção especial a algumas garotas que se debruçavam no palco e a aplaudiam com entusiasmo, replicando alguns de seus sucessos. As meninas faziam parte do Coral Esperança, formado por alunos da Academia de Artes, ONG do GCN.
 
O Coral Esperança, regido por Talita Machiavelli, tinha aberto o espetáculo com dois números- Depende de nós, de Ivan Lins; e A Casa, de Vinícius de Moraes. As cinquenta crianças que o formam estão ainda em fase de aprendizagem musical mas deixaram seu traço de ternura nas comemorações de nosso centenário. Arte das Musas, a música é uma das disciplinas da ONG mantida pelo GCN que tem como colaboradores funcionários da empresa. Entre aulas de violão e teclado, e muito exercício, as crianças estão descobrindo que cantar é expressar emoções e comover o público como mostraram todos os artistas presentes.
 
Enfim, cumprindo o que havíamos planejado, a música inundou a praça por duas horas, mexeu com as emoções, mobilizou pessoas de todas as idades e reforçou o valor democrático do Comércio. Também acreditamos que a música deve ser como o pão, a liberdade e a informação: fundamental, indispensável e para todos.
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora
 
 

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