Racismo

Por: Roberto de Paula Barbosa

A cada dia que amanhece, quando pego o jornal, tenho ficado atônito com as frequentes notícias de violências, mas as que mais me indignam são as de cunho racista. Racismo nos esportes, no ambiente de trabalho, nas escolas e, com mais ênfase, em diversos países e em todas as áreas. O racismo é uma violência gratuita, pois o agente se considera superior à sua vítima e é um preconceito baseado apenas na diferença física e cultural das pessoas. 
 
No último mês de maio completamos setenta anos da última guerra mundial, em que um dos objetivos, não o principal, era o extermínio de raças (judeus, ciganos, poloneses, comunistas e outras) e de pessoas que tinham pensamentos, ações e situações que não comungavam com os perseguidores (homossexuais, deficientes físicos e mentais), apenas por se imaginarem, os ditos arianos, serem de raça superior às suas vítimas. Preconceito puramente racista.
 
No Brasil, devido à miscigenação de diversas etnias - não digo raças, pois, para mim, existe apenas uma raça: o ser humano – e devido à legislação mais recente, o racismo é ilegal e considerado politicamente incorreto, mas sub-repticiamente ele continua existindo. Desde criança, meus pais me corrigiam e não aceitavam qualquer gracejo ou discriminação de cunho racista e assim, nesse ambiente, cresci e assimilei essa educação.
 
Quando eu trabalhava em São Paulo, lá pela década de sessenta, tinha como colega e grande amigo o Leônidas, um negro alto, forte e muito simpático, sorriso largo e afável no trato com todos os clientes e companheiros; solteiro, morava com a mãe numa casa simples na Vila Maria. Infelizmente, após minhas diversas andanças e mudanças, perdi o contato e nunca mais o vi.
 
Às sextas-feiras, após o expediente, sempre íamos ao Bar do Justo, em Santana, perto da agência onde trabalhávamos, para um “happy hour”, onde tomávamos uns chopes e beliscávamos alguns tira-gostos. 
 
Certa feita, no começo do inverno, uma garoa fina e persistente, insistia para que permanecêssemos por mais algumas horas no bar. Como a chuva não passava e as horas passavam mais rápidas, resolvemos compartilhar um táxi: eu iria para o bairro do Mandaqui e depois o Leônidas seguiria até a Vila Maria. Estávamos bem agasalhados, usando cada um, um sobretudo que nos protegia da chuva e do frio, além de alguns agasalhos internos. Parecíamos bem maiores do que realmente éramos. Postamo-nos numa esquina da Rua Voluntários da Pátria, onde o movimento era maior, mas a rua estava praticamente deserta àquela hora, e começamos a fazer sinal para os táxis que passavam. Todos diminuíam a velocidade e, ao se aproximar de nós, aceleravam imediatamente, deixando-nos com caras de tacho. Após a passagem de uma meia dúzia sem nos atender, olhei seriamente para o colega, que já estava ficando preocupado e disse-lhe:
 
- Leônidas, olhe bem para nós. Estamos parecendo uma dupla de mafiosos, com metralhadoras escondidas sob estes casacos. Um negão desse tamanho e um branco gordo, ambos com cara de pistoleiros, nem eu, se fosse motorista de táxi, pararia nessa rua deserta e a essa hora da noite. 
 
Nisso um motorista mais ousado – pelo menos eu achava que era – parou, abriu o vidro da porta do passageiro, e, com olhos muito arregalados e temerosos, perguntou-nos:
 
- Para onde vocês vão? Pelo amor de Deus moço! Eu tenho mulher e filhos para criar! A corrida é séria? Já estou rodando há um tempão e não tem freguês nessa hora.
 
Após contermos os risos, acalmarmos o taxista e a explicação dos destinos, ele concordou em nos levar, mas o medo embirrava em seu íntimo. Pelo menos, nesse caso, acredito que o motorista tenha chegado ileso para junto de sua esposa e filhos.
 
 
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor
 

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