Obra-prima

Por: Eny Miranda

Foram mais de cem flores-de-maio desabrochadas ao mesmo tempo no mês que lhes dá o nome. Os três vasinhos, com suas amplas e sobrepostas saias de franjas verdes, rematadas em rosa brilhante, ciclame e fúcsia, atraíam olhares extasiados. Espetáculo grato e comovente, porque tão intenso quanto efêmero. Flores-de-maio vivem l’éspace d’un matin. 
 
Talvez por isto: a “consciência” da beleza e do tempo - tão curto - de vida, aliada ao desejo de serem mais e melhor admiradas, de verem suas cores e sua luz compartilhadas, alumbrando muitos olhares, desejo este devido ou à inocente vaidade de flor ou ao generoso gesto de um coração tão belo quanto a aparência externa de quem o abriga, resolveram elas reflorir, o que aconteceu no finzinho da primeira quinzena de junho. E as amplas saias verdes mais uma vez se ornaram de pétalas e mais pétalas, consolando nossos olhos, já saudosos, e arrancando embevecidos “ah!”(s) de quem aqui chegava. 
 
O espetáculo, como de praxe, durou pouco - a conta de deixar claro o poder sedutor do que, a despeito de frágil, é belo. 
 
Mal aqueles vibrantes róseos se despedem de nossa varanda, eis que, num outro vasinho da prateleira, minúscula muda da mesma planta começa a partejar um também minúsculo rebento, a trazer, delicada, cuidadosamente, à luz, na extremidade de uma de suas únicas três hastes verdes, alvíssima gota. 
 
Alimentada, quem sabe, por um fio d’água invisível, ela se expande lentamente - convite a visitas cotidianas de observação e deleite - até transformar-se num botão, único e graúdo, que a pequenina haste, curvada, mal consegue sustentar. Paciente, a mudinha esperou que toda aquela exuberância colorida e multiplicada se desfizesse, para trazer aos nossos olhos desavisados, desarmados, surpresos, a sua obra-prima. E todas as atenções se voltam para ela, a abotoar sozinha, a gerenciar, sem pressa, com requintada arte, o surgimento de algo literalmente ímpar, neste híbrido inverno austral. 
 
Mil ah!(s) e oh!(s) brotam de bocas perplexas, maravilhadas: um grande, puríssimo floco de neve pousa na pontinha de uma fita frágil e desmesuradamente verde - gota finalmente desabrochada em pétalas, botão desaguado em flor; admirável pendentif tecido em seda e nácar - joia rara de uma ainda mais rara ourivesaria.
 
O espetáculo também dura pouco - a conta de deixar claro o surpreendente poder sedutor do que, a despeito de frágil, é belo, inesperado... e único.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 

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