viagem com Komarov

Por: Mirto Felipim

Uma vez mais voltou o som para still crazy after all these years.
 
a garrafa, já pela metade, testemunhava o estado lastimável. sentou-se calmamente na ponta do sofá, copo na mão, aguçou os ouvidos e se entregou à música. a memória, carregada de passado distante e recente, reinava por seu universo desgovernado.
 
lembrou-se de Komarov, daquele destino orbital de sentença inapelável. evocou San Francisco, onde tudo estava acontecendo, enquanto Komarov rodopiava ao redor de todas as cabeças, aguardando, entre impropérios intraduzíveis, o final totalmente anunciado.
 
tentou concentrar-se nas lembranças daquele tempo. tudo era muito horrível, mas era aquele tempo. o tempo de tantos resgates e promessas jamais cumpridas. 
 
o presente invade sua cabeça e sente a dor pinçando a ferida aberta. tenho de aprender a amar essa dor, repetiu, lembrando-se vagamente de ter lido em algum lugar sobre isso.
 
Komarov continua rodando em sua infinita órbita, e ele entende que não está só e sim que é só. não quer mais reconciliação, mas ansioso aguarda que ela aconteça.
 
bebe mais, pensa vagamente em suicídio e ri do impróprio pensamento. não tem vocação pra suicida. tem vocação é para a vida. mas a vida anda tão sem vocação para ele...
 
altera o rumo da música, deixa que o olhar atrás da porta corrompa seu último reduto de dignidade. o amor quando acontece a gente logo esquece que sofreu um dia. como o compositor tinha razão, pensa.
 
com a cabeça escorada no sofá, beberica e deixa escapar um soluço. o choro chegou sorrateiro. achou que não choraria mais. achou um monte de coisas, mas todas se perderam e o traíram. 
 
encantado, de olhos fixos no telefone, espera o mesmo que Kamarov, o milagre de uma contravolta. o telefone vai tocar afirma em voz alta. sabe que isso não vai acontecer, como sabia ele que o resgate era impossível e declarado.
 
cerra os olhos lentamente. ao reabri-los, pela janela, vislumbra uma lua safada e despudorada fazendo graça e arrombando prováveis corações apaixonados.
 
deixa o corpo finalmente se acomodar inteiramente, e, enquanto Milton afirma que estava em San Vicente, ele viaja junto a Komarov para o imudável destino.
 
 
Mirto Felipim, poeta, observador, escritor.
 
 

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