Perfídia

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Juventude e ingenuidade andam juntas. Eram unidíssimas nos tempos dourados, antes da difusão de novos costumes efetuada pelos avanços da tecnologia. Foi, pois, numa tarde fagueira que a mocinha romântica recomendou a sua linda amiga, loirinha, que parecia ter o céu em seus olhos, que observasse o ... e lhe contasse tudo que acontecesse, na sua ausência, pois iria passar uns dias na casa de sua prima, em outra cidade. Estava feliz com o passeio. Elas eram da mesma idade, adoravam-se, tinham infinitas afinidades e segredinhos. Fazia tempo que não se viam e a saudade feria de forma veemente. Quanto ao jovem referido ela lhe tinha um amor à distância, substanciado em fantasias e idealizações. Admirava-o quando, no domingo, à noite, volteavam a praça principal, rapazes e moças, em sentido contrário. Em cada volta um olhar, um esboço de sorriso, um suspiro...
 
No seu retorno, ansiou pelo domingo, quando teria notícias dele. À noite, na praça, o que viu deixou-a estarrecida. Perfídia! De mãos entrelaçadas, sua suposta amiga e ele, sentados em um banco de cimento sob um caramanchão envolvido em trepadeiras floridas! Compreendeu que não há bondade em todo mundo. A beleza visível da moça não afastava a insensibilidade de espírito. A falsidade costuma ter uma aparência formosa, disse o poeta.
 
Não imaginara o motivo para tal comportamento. As razões  dela nunca as soube. Não mais se falaram. Trair é uma escolha pessoal e se a “amiga” assim o fizera, deveria ter seus propósitos. Estava muito magoada para discutir esse assunto. Pouco depois teve notícias de que as vidas deles tomaram rumos diversos. Ela era muito jovem, recuperou-se desse desencanto, encontrou o seu verdadeiro amor. A sua vida foi gratificante. No entanto, faz mais de cinquenta anos que ocorreu este fato e ainda não foi esquecido. Traição nunca envelhece.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora

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