Breviário das bruxas

Por: Vanessa Maranha

Essa bruxa era atemporal. Dela não se saberia jamais a idade senão pelas pistas de ser atávica, de ser desde sempre. Seu percurso até aqui sugeria gritos inumanos sobre árvores, atabaques bestiais nas florestas, festins do Sabá.
 
Espécie renitente, que se endureceu sem volta nas liturgias do Malleus Maleficarum. Se originalmente apenas amantes dos prazeres mundanos não eram de fato a alardeada encarnação do mal, tornaram-se pois. Temidas e desprezadas, foram elas, as bruxas, vítimas de atrocidades: submersas em azeite, passaram pelos garrotes, aranhas espanholas, cunhas, puas e borzeguins; foram emparedadas, estiradas, açoitadas, suspensas em gaiolas de ferro, dizimadas a cepo e machado, despedaçadas em rodas de madeira com cravos enferrujados, serradas ao meio, empaladas, queimadas vivas. Eram criativos os verdugos e as santidades na arte de lhes infligir dor: amputamentos, dilacerações, punções.
 
Espécie forjada pelo abuso, endurecida, sem saída, foram se aperfeiçoando, geração após geração, no registro do perigo que suscitavam e assim se tornaram.
 
Alta e magra, cabeleira vermelha revolta, os olhos negros como túneis vazios, duros como monólitos, sem a obviedade da vassoura nem dos andrajos, chegava ao século 21 esta bruxa com uma certa elegância, que no entanto deixava escapar e entrever a bruxice nos detalhes, por vezes excessivos, às vezes orgânicos: adornos em marfim, ônix, ossos, âmbar, jade, longas penas, afiados dentes. 
 
Tinha ela dentro de si um silêncio de lápide, o qual calculadamente regurgitava para desestabilizar o outro que dela demandasse o que quer que fosse. Dela não se poderia possuir nada. Que o lugar da retenção, do direito, do privilégio, da posse ela já estabelecia de entrada como sendo seu.
 
O silêncio feroz, miradas que desencadeavam tempestades e furacões e que, sim, podiam matar por fazer secar, trazia ela a marca de seu gênero machucado no objetivo de destruir aquele que simplesmente fosse outro.
 
Falava um dialeto estranho, um bruxês cheio de consoantes chamado tzaryhrq que saía entredentes quando apenas o seu olhar de besta desenfreada não bastasse para amaldiçoar.
 
Gostava de sangue novo que lhe irrigasse a carne velha e pudesse retardar-lhe a putrefação em vida, agouro reservado a bruxas e assemelhados. E não que o bebesse. Era osmótico-energética ela, que atraía jovens vigorosos, cheios de curiosidade e aspirações para inocular-lhes o que de escuro transbordava de dentro de si. E justamente por isso, pelo inominado espargindo do interior do fosso sem fundo que a definia, esses jovens, já uma legião, quase se apaixonavam por ela. Quase. Porque na união que os acorrentaria em fascínio reverente por toda a eternidade, a centelha de vida que os movia se impunha, afinal, e os salvava daquela peçonha, pelo menos a alguns, olhos mais lúcidos e abertos.
 
Fazia-se homem, fazia-se fêmea; maldita como Tirésias, noites orgíacas ela organizava, verdadeiros bródios carnais. Mas do que gostava mesmo, à luxúria, ao extremo de sua vaidade, era do êxito em atrair inocentes à sua toca e de provocar-lhes a fala ao desnudamento e exercer sobre esses tais sua influência insidiosa, por palavras dúbias no propósito último de cavar-lhes o abjeto e depois atirá-lo em suas caras pasmas.
 
Havia o conclave de bruxas, reunião mensal em que elegiam objetos de discussão sempre pinçados dentre o que lhes mortificava em inveja: as obras de arte de que os humanos eram capazes e que bruxa alguma, pela qualidade do oco que as legitimava por dentro jamais lograra.
 
Então, obra posta em questão e escrutínio tentavam decifrá-la por sua limitada refração de bruxas. Sobretudo tentariam matá-la, mas, a arte, que não se presta a entendimentos e que passa ao largo das análises racionalistas sobreviveria, claro, mais forte ainda, além, apesar dessa sociedade soturna e autoritária. Evidente que um circunlóquio do tipo não ficasse só nisso.
 
Discutiam reserva de mercado para fazer frente às novas encantações tecnológicas e químicas, algumas delas, aliás, muito mais poderosas que seus já obsoletos feitiços medievais, esses que pouco tinham avançado até aqui. Também entravam em pauta arguições acerca dos perigos que certos discursos representavam à sua causa, por essa razão, investiam num rigoroso plano de formação de bruxas que consistia primeiro no aprisionamento das candidatas à elevação do título em “Maga”.
 
Tal prisão, em masmorra, pressupunha tutoria de um supervisor-didata que ficava responsável por praticar toda sorte de abusos e insultos à pupila que ao dito deveria se submeter de bom grado, inclusive, pagá-lo muito bem, na crença de que para alcançar o paraíso (ainda que um paraíso modorrento de bruxas) deve-se purgar numa travessia sinuosa emprestando-lhe a própria carne, por meio das torturas mais refinadas para que, finda a formação, esteja ela própria habilitada ao vilipêndio.
 
Seres torturados por sua própria natureza, bruxas vivem na base do instinto. A formação que as retire do estado laico consiste, mais objetivamente, em deixá-las em falta, em recusar e silenciar aos seus desejos mostrando-lhes inadvertidamente, como que num espelho, sua feiúra, sua crueza, a ausência histórica de possibilidades outras. Devassar-lhes até mesmo os sonhos. Mas não há que se enganar: a formação não vai domar bruxa alguma nem retirá-la de sua vida pulsional. Ao contrário, potencializará nela a flama vingativa, cruel, fria, perversa, enfim. Eis o cerne: ser manipulada para aprender a manipular com maior sofisticação. Criar conceitos a seu favor e que se desdobrem em dogmas. Subjugar o outro a quem se representará num teatro desvelo inicial, para capturá-lo depois e destruí-lo lentamente, tendo por porta de entrada sua maior fragilidade, desnuda na acolhida inicial. 
 
Bruxas também passam pela formação para posterior infiltração em várias instâncias: adoram a política, os consultórios, a Previdência Social, a indústrias alimentícia, farmacêutica, alcoólica e de tabaco, a imprensa, a TV.
 
De uma bruxa como essa que deu o mote para essa descrição não há enredo a contar, não há fatos narráveis que não tenham sido repetidos pela História. Só iniquidade.
 
Essa bruxa, até aqui sem nome, representante de uma espécie inteira, não se chamava Agripina. Poderia se chamar Luz, Lua, Sol: bruxas são fraudulentas mesmo e é no signo do engano que se apresentam exteriormente: pelo seu exato avesso, pelos encantamentos. Chamemo-la, portanto, sob riscos evidentes, Ela. Chamemo-la Coisa, os dentes pretos à mostra na risada mais estridente, o horror em seus gritos quando se via acuada, sons semelhantes ao silvo ensurdecedor de cinco mil gafanhotos em voracidade de devastação.
 
Ela caminha por aí.
 
 
Vanessa Maranha, Psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida, Cadernos Vermelhos, 807 dias, contagem regressiva e Quando não somos mais

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