Passeio

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Fecho os olhos e caminho até o topo das colinas da minha terra. Sento-me na linha do horizonte e deixo meus olhos vagarem pelas vizinhanças.
 
À esquerda, numa cidadezinha chamada Delfinópolis, espremida entre um grande rio e uma serra enorme, Oscar Kellner escreve contos de elevado quilate.
 
Ali pertinho, ao pé da Serra Saudade, na minha Cássia natal, o médico Luís Alberto Salerno Miguel e o juiz Ricardo Bastos vêm escrevendo e publicando muito bons livros de ficção.
 
Volto os olhos para a direita e me chegam prosa e poesia de Rifaina, de Pedregulho, de São Joaquim da Barra, de Orlândia, de Morro Agudo, de Salles de Oliveira, de Batatais... Ergo um pouquinho a cabeça e enxergo a vizinha São José do Rio Preto. Procuro Dinorath do Vale. Recordo que ela já se foi, mas ali está, permanentemente vivo, o seu romance Pau Brasil, ganhador do prêmio Casa de Las Americas.
 
Volto a cabeça, deixo que meus olhos se demorem sobre Ribeirão Preto. Reencontro colegas da velha guarda.
 
Revejo Gilberto de Abreu equilibrando-se na linha quase invisível entre a literatura e a música, mas sempre mandando beijos para Gardel.
 
Revejo Galeno passeando por diferentes veredas dos corações infantis.
 
Revejo Puntel e seu Açúcar Amargo, obra antológica no gênero e reabro seu Pacote, invejável trabalho narrativo inserido em sua obra adulta,  Não Aguento Mais Este Regime.
 
Revejo Menalton Braff e seu Jabuti e me impressiona ainda a incansável disposição do escritor para divulgação da sua e da alheia literatura.
 
E por fim minha saudade descansa ao lado de Ely Vietez, Encantadora de Serpente, e amiga de tantos anos.
 
Levanto-me, desço colinas, retorno ao burburinho de terra que tanto planta energia, que tanto colhe sapato e café e riquezas outras. Venho pensando na literatura da minha terra, na literatura da região em que moro. Ela é por demais pródiga e, creio, aperfeiçoa-se com a permanente revelação de novos sonhadores e idealistas.
 
Qualquer dia – é outra crença – aparecerá por aqui uma genialidade que realizará a síntese de toda nossa produção e a fará imortal.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 

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