Meu lado feminino

Por: Fernanda Honório Maniglia

Umas das melhores coisas em ouvir os Beatles é compartilhar de algumas verdades que eles, poeticamente, traziam para o mundo. Verdades incontestáveis, mas que o ouvido só gosta de ouvir se forem poeticas. Para o ouvido feminino, a poesia presente na frase: A mulher é o negro do mundo. A mulher é a escrava dos escravos. Se ela tenta ser livre, você diz que ela não te ama. Se ela, pensa, você diz que ela quer ser homem - dita por John Lennon – inspira a percepção da sutileza do abismo que existe ente a conquista do direito de igualdade com a vivência deles em um mundo essencialmente construído por homens.
 
Sempre esperam de nós, mulheres, desde a mais tenra idade, a disponibilidade, a compreensão, a graça, a delicadeza, a fragilidade. Sim, temos todas essas características, mas também vulnerabilidades. Mas não porque somos mulheres, sim porque somos humanas. Ultrapassar esse padrão de comportamento é um desafio vivido por nossas avós, mães, e creio que por nós, nossas filhas e nossas netas. As vezes parece mais difícil mostrar que se é humana do que mulher, transgredir um conceito que fizeram da sua imagem, sem ao menos a nossa permissão, me parece uma tarefa cansativa e improdutiva. Não há sentido em dar respostas a perguntas que nunca elaboramos para nós mesmos.
 
Então, quando um homem compara nosso desejo de liberdade com a imensidão do nosso amor, ou quando nossa fala traz mais lucidez para o mundo, e que faz com que os homens se sintam subjugados, não somos nós que devemos responder: sim, seres delicados, frágeis e vulneráveis podem impulsionar o desenvolvimento do mundo e de outras pessoas. São quem se questiona dessas possibilidades que precisa encontrar a resposta. Quanto à nós, cabe continuar nossa luta existencial pela invenção, pela inovação e pela vida.
 
Simone de Beauvior disse que não nascemos mulheres, mas nos tornamos mulheres, acho que quando aceitarmos que não temos que provar nada à ninguém, estaremos nos tornando mulheres de verdade, incansáveis em nossa luta e pela descoberta do que o mundo tem a nos oferecer. Não é a menstruação, o casamento ou a maternidade que define nossa essência de mulher, é antes de tudo e sobretudo, um olhar lançado as questões do mundo e de sua humanidade, com total acolhimento e capacidade de sobrepor ao instituído, ao declarado, ao imposto, principalmente no que se refere a capacidade de viver a experiência do amor.
 
Será que o que nos resta é o amor? Não, o amor não é o que fica após as lutas, ele é a causa primeira das mesmas. Podemos passar a vida inteira sem saber o seu gosto, mas não passamos um dia sequer sem desejá-lo. O desejo de amar provavelmente surgiu na humanidade pelo coração de uma mulher. Todas as grandes histórias de amor da humanidade têm a invariabilidade de tempo como marca – nunca serão esquecidas. Não foi pelo contexto que elas fizeram história, foi pela simbologia que o amor foi capaz de representar na sociedade que, atemporal como ele, sempre precisa de provas de amor.
 
 
Fernanda Honório Maniglia, assistente social e psicopedagoga
 
 

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