Digressão

Por: Everton de Paula

Perca-se tudo, mas não se perca o dinheiro.
 
- Como assim? Então para você o dinheiro é a mola mestra da sobrevivência?
 
- E não? Você consegue adquirir alimentação, roupa, moradia, assistência médica, entretenimento sem dinheiro? Que esperança você tem em viver sem o respaldo da vil moeda?
 
- Eu penso que você está errado. Seu pressuposto é falso. Está bem, você tem o dinheiro graças, suponho eu, a um trabalho honrado, digno. Pode até não ser muito dinheiro, mas o suficiente para a sobrevivência. Aí, você fica doente...
 
- Vira essa boca pra lá...
 
- Está vendo? Você mesmo deixa escapar que sem a saúde não há esperança para se obter o dinheiro. Então, vamos refazer sua primeira frase: perca-se tudo, mas não se perca a saúde.
 
- Posso até concordar com você, mas pense bem: você está com saúde e com emprego. Forte, encorpado, colesterol ruim em níveis baixos, hemograma cem por cento, rosado, rindo à toa... Daí, os diretores do negócio onde você trabalha avisam assim, de supetão: vão fechar as portas. O que acontece, então? Lá ficará você, forte e bonito, com o dinheiro do fundo de garantia (uma merreca) no banco, mas sem trabalho. Procura aqui, ali, acolá, e nada de emprego. Acabam-se as esperanças de ter com o que sustentar família e a própria sobrevivência. Então, não nos enganemos: perca-se tudo, mas não se perca o trabalho.
 
- ...
 
- ...
 
- É, mas tem um lado que não pode ser deixado de lado.
 
- Qual? O lado obscuro?
 
- Não, sem gozação! Absolutamente nada nesta vida faz sentido se não houver espiritualidade. Para que o esforço? Para que o trabalho? Para que os pequenos progressos que conseguimos, a duras penas, obter em nossa vida? Há de ter um sentido transcendental nisso tudo. Que esperança teria você com dinheiro, saúde, trabalho e nenhum sentido metafísico nisto tudo?
 
- Acho que perdi alguma coisa na sua explicação.
 
- Trabalhar, sobreviver, gozar de plena saúde para no final de tudo simplesmente morrer? Salvo o cético ou o ateu integral, não acredito que alguém se sinta completo com todos os benefícios mínimos da vida mas sem a noção de uma espécie de recompensa espiritual. Assim, retomo pela segunda vez sua perspectiva de vida e reconstruo a frase: perca-se tudo, mas não se perca a espiritualidade.
 
- Você coloca nossa discussão num plano muito simples...
 
- Onde foi que simplifiquei?
 
- Primeiro, você não vai concordar nunca comigo. Segundo, que sempre haverá uma virtude maior que a apresentada. Isto prosseguirá até não sei quando.
 
- Está bem, vamos ser parcimoniosos: saúde, trabalho, dinheiro e espiritualidade, não necessariamente por ordem de importância. Com estes quatro elementos garantidos, garantiremos a esperança de sobrevivência plena e satisfatória, para si e para todos aqueles a quem queremos bem, ou minimamente para nossos familiares.
 
Neste ponto da conversa, um terceiro amigo, mais idoso, presente a toda a discussão, cabisbaixo, silencioso porém muito atento, levantou o dedo em sinal de que queria dizer algo. E disse de forma convicta:
 
- Vocês dois, em cada exposição de ideias, empregaram a palavra esperança. De fato, sem esperança, não haveria perspectiva de um futuro trabalho, da melhora do estado de saúde, da possibilidade real de um salário no final de um mês e a existência de uma crença em algo superior. Assim, proponho encerrar esta discussão com uma única frase: perca-se tudo, mas não se perca a esperança.
 
Fez-se silêncio. Não poderia haver contraditório. Coincidentemente, uma pomba branca sobrevoou os amigos  e selou o consenso.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras
 
 

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