O relato de uma doença cruel

Por: Sônia Machiavelli

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Não é fácil definir o gênero do livro Para Sempre Alice, de Lisa Genova, que inspirou o filme homônimo, do diretor Richard Glatzer, morto aos 63 anos, dois dias depois de seu trabalho ter sido premiado em Los Angeles. No papel da protagonista, Julianne Moore ganhou o Oscar 2015 de melhor atriz.
 
A sensação inicial que tive ao chegar na semana passada à última página do relato e ao enxuto pós-escrito da autora, reforçou-se ontem com a leitura da reportagem Juízo Final, sete páginas assinadas pelo jornalista Robin Marantz Henig para a edição de julho da revista Piauí . A matéria da revista, baseada em dados biográficos, factuais, parece ser um resumo incrivelmente próximo da história do livro, que a editora Nova Fronteira registra como obra de ficção.
 
Em ambos os casos, uma profissional renomada, com forte presença acadêmica, atuante na área de psicologia, é diagnosticada com Mal de Alzheimer e deve enfrentar a terrível sentença, ao mesmo tempo em que a degeneração de seu cérebro acarreta problemas irreversíveis de identidade para si e de espanto e dor para os membros de sua família.
 
A reportagem, mais uma da seção periódica “história pessoal”, define-se por si mesma: parte de uma notícia verdadeira, com nomes e endereços reais, e esmiúça os fatos no modo “new journalism”, estilo no Brasil muito bem representado pela jornalista Eliane Brun. Mas o livro fica numa zona neutra onde escapa ao conceito tradicional de romance, de conto e de novela por conta da linguagem que não é exatamente literária. Nem no sentido polissêmico que define a literatura enquanto discurso, nem no sentido dos desdobramentos permitidos pela saga, o que leva cada leitor a uma leitura. À parte algumas metáforas como a recorrente borboleta no colar herdado da mãe ou a chupeta na boca do neto nas linhas finais, o que temos é uma descrição precisa, embora executada com elegância, do avanço da doença sobre uma mente que perde incessantemente seus neurônios. A palavra conotativa em nenhum momento se mostra esplendorosa. A autora narradora até parece se esforçar para transmitir emoção em algumas páginas, mas sua preocupação 
com o verdadeiro suplanta a atenção ao verossímil, e assim a objetividade elide a condição literária. Isso não desmerece a obra, que sendo escrita por uma PhD em neurociência, tem credibilidade para prender o leitor e também tirar seu sono, como resenhou o New York Times: “Você vai querer lê-lo noite adentro, sem parar, até o fim; é uma história que precisa ser contada”. 
 
A história de Alice nos faz recordar outras que nos contaram ou que presenciamos. No meu caso, lembrei-me muito de uma tia cujo primeiro sinal da doença ( que então nem tinha nome), foi um certo alheamento, confundido com serenidade, considerado normal para quem chegara aos setenta anos, mas que se mostrou sintomático no dia em que o frango congelado que ela havia comprado desapareceu misteriosamente de cima da mesa, sendo encontrado muito depois dentro de um armário, enrolado em pano de chão. No final da vida, ela sequer reconhecia sua imagem no espelho e perguntava a quem estivesse próximo: “quem é essa mulher?” Em  Para sempre Alice há cenas assim, como aquela onde o celular some e é achado muito depois dentro do freezer, ou quando após assistir à peça onde atua uma das filhas, Alice lhe pergunta, ao cumprimentá-la, quem é ela e qual é o seu nome. 
 
Minha tia professora era grande leitora e possuía invejável vocabulário. A personagem da matéria Juízo Final é psicóloga clínica, autora de livro seminal sobre estudos de gênero e reconhecida por pensar em profundidade e de forma original. A protagonista de Para sempre Alice, doutora em Psicologia Cognitiva, tem entre os vários títulos publicados, um de Linguística. Parece que em áreas onde a palavra tem valor imensurável (e onde ela não o tem?), os sintomas da moléstia assumem um traço mais trágico por conta da ironia. No início da doença, minha tia colocava nomes estranhos nas coisas; Sandy começa “as suas esquisitices” trocando “bubble” (bolhas) por “blizzard” (tempestade de neve); Alice luta para descobrir “o que tem no copo, é cremoso, branco e gostoso ”, até que a filha a socorre: “é cream cheese, mamãe.”
 
Todas as doenças degenerativas são cruéis; mas o mal de Alzheimer parece que ocupa o primeiro lugar no ranking das que devastam mais e rapidamente. Nada pode ser pior para o ser humano que se ver condenado a perder aos poucos o léxico, a capacidade de nomear, também as emoções, todas as lembranças, o jeito de se vestir e o de comer, a própria identidade. Na lousa da memória, o apagador funciona sem cessar. Junto com o paciente, a família corre alto risco de se desestabilizar, pois todo um mundo organizado de repente cede lugar ao caos. 
 
Minha tia, cercada de muito carinho pelos filhos, foi encolhendo até se tornar do tamanho de uma criança de dez anos- e ela fora quando jovem jogadora de basquete. Sandy Bem, na matéria do jornalista que escreve para a Piauí, opta por uma saída com a ajuda do ex-marido, de uma filha, de uma amiga, justificando o título da matéria: Juízo Final. Alice, em certo momento, planeja o mesmo que Sandy, mas se esquece quase imediatamente disso para mergulhar num mundo onde miraculosamente salva-se o amor, como se pode concluir da cena final. É o único momento esperançoso do livro. 
 
Tanto no texto da Piauí como no relato de Lisa Genova, ao lado das informações sobre o avanço da doença, há nomes de remédios, dois ou três, que parecem apenas responder a um desesperado apelo de doentes, familiares e leitores preocupados. Ainda não há cura nem paliativos, o que não significa que é melhor ignorar o mal de Alzheimer, pois ele não escolhe a quem atacar. Cerca de 35 milhões de pessoas ao redor do mundo sofrem da doença que rouba o outro de si mesmo, ao lhe sequestrar a memória. Maior tragédia individual haverá? 
 
 
COMEÇO DIFÍCIL
 
Lisa Genova nasceu em 1970 em Massachussets, onde mora até hoje com sua família. É psicóloga e doutora em neurociências por Harvard. Sua história como escritora é inspiradora para todos os que enfrentam dificuldades em publicar e divulgar seus livros. 
 
Após passar um ano e meio escrevendo a história de respeitada professora universitária de 50 anos que trava luta contra o mal de Alzheimer, Lisa teve os originais rejeitados por várias editoras e agentes literários. Um deles chegou a lhe dizer: “As pessoas não se interessam pelas histórias dos que sofrem com o Alzheimer”. Mesmo depois de ouvir uma série de “ nãos”, ela continuou acreditando na história que havia criado e se decidiu pela impressão sob demanda. Num primeiro momento isso não funcionou e durante dois anos o livro foi vendido no bagageiro de um carro, porta a porta. Mas... um dia, vendo Lisa Genova na TV, falando sobre o livro e a doença, um grande editor decidiu publicar a obra em nível nacional. Still Alice, título no original, manteve-se por muitos meses na lista dos mais vendidos nos EUA. A adaptação para o cinema, em 2014, iria alavancar as vendas, que continuam subindo, pois quem viu o filme quer ler o livro. 
 
Lisa Gênova escreveu depois Nunca mais Rachel, cuja protagonista é jovem executiva, casada e mãe, que sofre um acidente e perde o domínio sobre a parte esquerda do corpo. 
 
A autora faz palestras no mundo inteiro sobre Alzheimer, traumas cerebrais e autismo. (SM)
 
 
LIVRO
 
Título: Para Sempre Alice
Autor: Lisa Genova
Editora: Nova Fronteira
Edição: 1
Ano: 2015
Idioma: Português
Especificações: Brochura | 288 páginas
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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