Crônica de um dia doido

Por: Roberto de Paula Barbosa

Fria manhã de outono, sol brilhante, céu encarneirado, acompanhei meu amigo Edu, O Inflamado, ao Hospital Psiquiátrico Allan Kardec, onde ele deveria resolver alguns problemas de seu trabalho voluntário. Entrei ressabiado pensando que a qualquer momento um paciente poderia pular na minha jugular. No pátio os internos se espalhavam, contrariando minha imaginação, conversando, encolhidos, apreciando os raios de sol. Sentei-me em um banco e logo se aproximou o Hermógenes:
 
- Bom dia. Posso sentar-me aqui com o senhor?
 
- Pode. É um prazer.
 
- Prazer por quê? O senhor tá me achando bonito?
 
- Não é isso. É um modo de falar, de ser educado.
 
- E por acaso então sou feio? Precisa ser educado para achar os outros feios?
 
- Desculpe. Não quis dizer nada disso...
 
- Tá bom. Já que pediu desculpas. Hoje tá um friozinho, não?
 
- É...
 
- O senhor foi internado hoje? Eu acho que nunca o vi aqui.
 
- Não, não. Vim só fazer uma visita, acompanhando um amigo meu.
 
- O senhor tem parente internado aqui?
 
- Não. Só vim mesmo fazer uma visita, conhecer o lugar...
 
- Se o senhor não tem parente aqui, veio visitar quem?
 
- Vim só conhecer o hospital, ver como é que funciona aqui, talvez ajudar um pouco como voluntário.
 
- Já que o senhor veio visitar e não tem parente para visitar, que tal o senhor me visitar, pois eu não tenho ninguém para me visitar.
 
- É uma ótima ideia. Mas eu preciso conhecê-lo para que nos tornemos bons amigos. Por que você não começa contando porque está internado aqui. Parece que você não tem problemas psiquiátricos. Fala bem, parece que é culto e não tem aquele olhar...
 
- De doido? De maluco?
 
- Não quis dizer isso...
 
- Mas pensou!
 
- Tá bom. Fale-me de você.
 
- Meu nome é Hermógenes. Completei o primeiro grau na escola e fiz um curso técnico no ramo de calçados. Já fui muito trabalhador. Tinha uma banca de pesponto com cinco máquinas e minha mulher me ajudava. Tinha dois filhos lindos e ainda criava um pretinho que, para nós, foi uma dádiva de Deus. Tinha muitos amigos que sempre vinham em casa tomar umas cervejinhas. Meu filho mais velho era pequeno ainda, uns sete ou oito anos, quando começou também a ajudar, cortando linha, varrendo o chão, ajuntando as aparas da chanfração e outros pequenos serviços que qualquer criança pode fazer. Comprei casa, tinha um carrinho velho e vivia até bem. Mas aí veio uma denúncia de que eu estava explorando o trabalho infantil: prenderam-me, processaram-me, multaram-me, puseram meu nome na coluna policial dos jornais, enfim, acabaram comigo. Gastei o que tinha e o que não tinha com advogados, que me sugaram até o último centavo. Fiz dívidas com bancos, financeiras e agiotas, até não ter mais a quem recorrer. Minha mulher ficou doente; a farmácia, a padaria, o mercadinho não vendia mais fiado e começamos a passar fome. Cestas básicas foram doadas, mas eram esporádicas e insuficientes. Com a minha ficha policial ninguém queria me dar emprego e ainda me chamavam de explorador de crianças.
 
- Mas você não recorreu a seus amigos?
 
- Amigos? Sumiram todos. Minha mulher faleceu nova ainda, acho que de tanto desgosto. Não tinha meios de sustentar meus filhos e eles foram para a casa de “gente bem” que os exploravam nos trabalhos domésticos. Fiquei desesperado e entreguei-me à bebida. Aí achei grandes amigos que me pagavam umas pingas. Quando estava com fome, pedia para me pagarem um lanche, davam-me somente cachaça. O que o senhor acha que aconteceu? Internaram-me aqui para ficarem livres de um peso na sociedade. Aqui cumpro meu papel de doido para ter um teto e comida. Já faz vinte anos.
 
- Mas você não sabe onde estão seus filhos? Eles não o visitam?
 
- O mais velho – deve estar com 28 anos – foi adotado por um traficante de drogas, pego com a boca na botija e está engaiolado. Era um menino que ia bem na escola e, depois que fazia seus deveres escolares, ficava na banca nos ajudando e gostava do que fazia. O senhor já pensou se ele tivesse continuado a trabalhar comigo? Hoje ele teria uma família, pagaria impostos e não seria um ônus para a sociedade. Mas a loucura coletiva é pior do que aquela que aqui está.
 
- E outro filho mais novo? Você não tem notícias?
 
- Há uns dez anos mais ou menos fiquei sabendo que ele foi libertado de uma carvoaria, onde trabalhava como escravo. Depois não tive mais notícias dele. O dono da carvoaria foi obrigado a pagar umas indenizações e hoje é um grande ricaço na região. Foi deputado e agora é candidato a senador.
 
- Mas você não poderia denunciar?
 
- E você acha que alguém acreditaria em um louco internado há vinte anos?
 
- E o outro adotivo?
 
- Esse se deu bem. Ele é trabalhador, tem família, mas mora muito longe daqui. Pelo menos uma vez por ano ele vem me ver. Eu deveria agradecer a Deus por ele ter sido encaminhado, mas e os outros? Por que Deus não os encaminhou também. Acho que Deus também é doido. Ajudou um pretinho e deixou os outros na miséria. Ou será que a humanidade é mais doida ainda?
 
- Não fale assim. Quem crê em Deus não pode perder a esperança. Quem sabe você não tem alguma dívida em existência anterior para pagar? 
 
- O senhor tá louco? Mais dívida do que a que fiz para saciar a volúpia humana em sacrificar vidas? Realmente acho que o senhor é mais doido do que eu.
 
- Bem, deixa pra lá... Vamos mudar de assunto, que esse já está me deixando louco. Quero dizer...
 
- Não liga não. Já estou acostumado. Mas por que o senhor veio aqui mesmo?
 
- Vim só acompanhar meu amigo. Ele está muito preocupado porque o hospital pode fechar por falta de verbas. Você sabia?
 
- É; já correu esse louco boato entre nós, os doidos, e entre os funcionários, que também são loucos para receber os salários atrasados.
 
- Pois é. Por falta de verbas estatais e com a pouca contribuição voluntária da sociedade, o hospital pode fechar e todos vocês deverão voltar para suas famílias, se é que elas os aceitarão de volta, ou ficar perambulando pelas ruas. Tem muita gente correndo atrás das autoridades e estendendo o chapéu para não deixar isso acontecer, mas alegam que não existe dinheiro, que a burocracia os impedem, e a situação dos doadores também não é lá essas coisas. 
 
- Espere aí. Nós, os doidos, não podemos fazer alguma coisa? Por que não fazemos uma passeata, com cartazes e faixas, em frente à prefeitura, câmara, bancos, bairros ricos, mostrando como ficará a cidade com todos nós soltos nela. Não é uma boa ideia?
 
- A ideia é ótima, vamos falar com o diretor do hospital pra ver se ele topa?
 
- É. Agora eu não acho, tenho a certeza que o senhor é mais doido varrido que eu. Nós deveríamos trocar de lugar. Vamos, vamos, vamos???
 
 
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor

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