A Assoluga

Por: Chiachiri Filho

Não há dúvida de que a mulher é um ser que sofre. Sofria muito mais antigamente. Hoje em dia eu não sei como está, mas, nos meus tempos de rapaz, as moças podiam sofrer por dançar e por não dançar. As que tomavam chá de cadeira, saíam frustradas por não terem sido convidadas para uma valsa, um samba, um bolero. 
 
Outras moças estavam sempre dançando. Dançavam com quem queriam e não queriam. Dançavam com cavalheiros educados,  perfumados e simpáticos. Tinham também de dançar com broncos, ignorantes e bêbados.  Se elas dessem tábua, isto é, recusassem o convite para a dança, a confusão estava armada.
 
Um amigo meu estava doido para dançar com uma determinada moça.  O seu primeiro pedido foi recusado, o segundo também. Quando ela recusou o terceiro dizendo que estava cansada, o meu amigo não teve dúvidas. Arrancou do bolso uma nota de 1 cruzeiro, jogou em cima da mesa e disse:
 
- Da próxima vez você  venha de ônibus.
 
Havia em Franca a Associação  Cultural Luís Gama (a Assoluga) comandada  por mestre Botelho. Situava-se numa das travessas da Avenida Getúlio Vargas e era o clube dos afro-descendentes, dos homens de cor, enfim, dos negros. Seus bailes eram concorridos e animados. Muitos rapazes da chamada “elite branca” preferiam se  divertir no salão da Luís Gama, quer pela qualidade da  música, quer pela maestria das dançarinas.
 
 Certa feita, porém, as meninas da Luís Gama estavam sistematicamente dando tábua nos garotões de pele branca que frequentavam o recinto. Revoltados, eles foram reclamar com o mestre Botelho, dizendo que eram respeitadores e pagavam caro o ingresso. Mestre Botelho, sensível à reclamação da moçada, não teve dúvidas. Foi até o salão de festa, mandou parar a orquestra e pediu:
 
- Meninas! Vocês não devem tratar mal os nossos visitantes. Eles vêm aqui para dançar, para se divertir e não para tomar tábua.
 
E completou:
 
- Afinal de contas, meninas, branco também é gente!
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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