Cirilo Barcelos

Por: Luiz Cruz de Oliveira

O tempo descoloriu muitas certezas, mas acho que nosso primeiro encontro ocorreu no ano de 1951 ou de 1952. O que não perdeu a cor foi a figura do homem grandão, caladão, mas de gestos serenos e de voz calma.
 
Encolhido, amiudado, conheci-o quando, num daqueles longínquos anos, acompanhei minha mãe até o seu consultório. Ele clinicava, então, num casarão localizado na Praça Nossa Senhora da Conceição, mais ou menos onde hoje funciona a agência do Banco Bradesco.
 
O tempo, de fato, apagou muita coisa. Não esqueci, porém, é que havia dezenas de mulheres na sala de espera e que, lá pelas duas horas da tarde, o médico interrompeu o atendimento, saiu à rua, foi até um carrinho, comprou bananas nanicas, voltou comendo-as.
 
Não esqueci nunca que, na sala enorme, havia uma mesa grande. A gaveta do meio ficava aberta e, quando as pessoas saíam da consulta, colocavam ali notas de um cruzeiro, de cinco cruzeiros, de dez cruzeiros, conforme suas condições no momento.
 
Não esqueci nunca que a maioria das pessoas não tinham cédulas para jogar na gaveta. Deixavam, porém, muitos “Deus lhe pague” ao homem que as acompanhava até a porta, a fim de convocar a próxima pessoa a ser consultada.
 
Não me esqueci nunca que não havia secretária para organizar as pessoas por ordem de chegada, para dar informações, para operar os recebimentos.
 
Minha mãe explicou que cada um pagava quanto podia.
 
- Quase ninguém pode, então fica fiado.
 
Em mim, infelizmente, muitas certezas perderam o colorido. Algumas atitudes do Doutor Cirilo Barcelos ficaram marcas inapagáveis e, certamente, nortearam muitos de meus comportamentos de menino e de adulto.
 
Hoje, olho lá para distantes passados e revejo os primeiros passos do médico.
 
Com a amolada enxada sólida da solidariedade e da doçura, desde seu consultório e das suas visitas domiciliares, o Doutor Cirilo já construía a estrada que lhe permite, hoje, chegar ao sítio, onde já operam, irmãs da sua, as almas de Doutor Fernando Ruas, de Doutor Alonso, de Doutor Bezerra de Menezes...
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 
 

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