A serviçal

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Tá bem velhinha, não perdera de tudo o antigo brilho, era clara e quase viçosa. Os raios de sol não lhe abrasaram a tez, sempre trabalhou sob o teto da senhora, na sombra de seus desejos, sem se identificar, sem aparecer, anonimamente, sem ser, sem ter mais que o básico, demonstrando zelo, respeito incondicional, devotamento e entrega. A sua fidelidade por quase sessenta anos pressupõe uma dedicação amorosa sustentada por um afeto muito grande, sua lealdade demonstra respeito quase venerável. Claudicante, ainda responsabiliza-se pelos poucos afazeres domésticos daquela casa que presenciou momentos intensos, com muitos filhos, netos e amigos transitando pelas imensas salas e corredores que levam aos inúmeros quartos e demais aposentos. Agora só vivem lá ela e a patroa, aliadas diante das vicissitudes da vida.   Chegou àquela mansão, vinda da casa grande da fazenda onde sua mãe trabalhara por outros tantos anos. Ainda menina estranhou as ruas, os carros e as luzes da cidade. Rapidamente, aplicou-se à faina doméstica e tornou-se indispensável. Substituiu a mãe e viveu toda uma vida dedicada aos senhores. Sonhou os mesmos sonhos, vibrou e chorou com as alegrias e as tristezas. Abdicou de sua vontade, de sua ilusão, de seus pensamentos. Prestativa, de fala enxuta e tom suave nunca se distanciou da casa, novas paisagens não encantaram seus olhos, outros conhecimentos não alimentaram sua mente. Seguindo o curso da vida, todos foram se mudando. E sua vida também seguiu, mas na sombra, invisível, sem quereres, sem voz, sem posicionamentos, apenas uma serviçal, remunerada, mas sem vida própria. Nunca lamuriou ou arrependeu-se de sua escolha. Este foi o trajeto escolhido por ela para sua caminhada. Dedicar sua existência aos outros. Parece feliz assim, tem seus proventos amealhados com muito esforço e muito gosto, também. É estimada pela família que a tem em grande apreço. Os dias que lhe restam, saberá dedilhar as pautas das lembranças e emoções vividas e tocar as melodias do afeto, do desapego, do desvelo.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 

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