Carta para eu não me esquecer

Por: Maria Luiza Salomão

Meu Deus, você velha!?!    
 
Difícil ser criança, monitorada na espontaneidade, a ter que seguir insensatas (por vezes) ordens dos mais velhos.  O mais gostoso se faz escondido, quando criança.  Descia uma montanha de palha de arroz de uma beneficiadora do meu padrinho, com gosto: ficava pinicando, palha espetando, mãe reclamando, feliz...   Subia nas sacas de amendoim do armazém de meu pai, sozinha entre os carregadores, espécie de mascote.  Brincava sozinha, sem brinquedos: montava cenários, lugares, eu me inventava. Era viajante, desde sempre.  
 
Mais difícil é ser adolescente, medo de pertencer a uma turma ou de ficar no bloco do eu sozinho. “Tchurmas” são impossíveis: se seguir alguns pré-requisitos para pertencer a uma, você deixa de ser quem você é!  O pior dos dois mundos: se é da turma, você não é para si mesmo; se é para si mesmo, não é da turma. Sem contar o espelho, que parece nunca amar o adolescente, refletindo o que ele não quer ser. 
 
Difícil, difícil mesmo, é entrar na zona da maturidade, que tem fronteiras variáveis. Há quem nunca se torne maduro... e sempre se pode recuar. Mas tem preço a tentativa de recuo! Há os eternos adolescentes, e, mesmo, os eternos bebês (que querem que o mundo gire à sua volta).  Os eternos adolescentes: odeiam a realidade do corpo (suas limitações, rugas e que tais) e odeiam o esforço que a alma exige para amadurecer. 
 
Na realidade, interna e externa, a aparência conta menos e é mais fugaz do que a experiência. Experiência é coisa de alquimista: transformar-se para obter um mundinho. Apropriar do vivido, de emoções fugidias e intuições enevoadas para atingir a lucidez, a substância do que se aloca definitivo na alma.    
 
O passado, o vivido, está no sangue e na verve. Não percebo, às vezes, o peso do passado, das suas correntes, ou da gaiola em que me prende (gaiola aberta, por vezes). Teimosia seguir manuais e que tais: isso, sim, é velhice, em qualquer idade cronológica! Depois do vivido “Inês é morta!”
 
A vida é puro milagre... sempre morrendo e ressuscitando. Um dia acaba total, à revelia. O inescrutável da vida: recriar (coisa paradoxal) a espontaneidade (eu-criança); sustentar o que sou, para o bem e para o mal (eu-adolescente); assumir corpo/alma - o conjunto da obra – inacabado e incompleto, insuficiente e deficiente e... (eu-madura). Caleidoscópio do diabo! Sofrer, sem medo de sofrer, a registrar cada estação, cada passagem, cada vizinho passageiro...
 
Psiu, eu bobo: aquela vida já passou: invente outra e boa viagem!
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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