Sutilezas de um quintal

Por: Isabel Fogaça

O manjericão é uma planta muito usada na fabricação de xaropes, como também, é utilizado na confecção de saborosos temperos. Entretanto, em três circunstâncias de minha existência, tive uma relação muito íntima com esta planta, e é isto que eu pretendo contar a vocês hoje.
 
Cresci no campo, com a possibilidade de amassar a terra com os pés, e sentir o cheiro do beijo do sereno com as hortaliças. Aprendi o significado da palavra “tradição” apreciando as práticas agrícolas que meu avô desenvolvia, as mesmas que, provavelmente, ele aprendeu com gerações anteriores a sua. “Tradição” carrega a docilidade de transmitir algo com amor, do modo que você possa ver seu coração no outro e ter a certeza que aquilo não terá um fim repentino. 
 
Sempre que penso na casa de meu avô, remeto o delicioso aroma de minha infância: o cheiro de mexerica madura; o aroma de erva cidreira; terra molhada e, sobretudo, o cheiro de manjericão. A fragrância marcante do manjericão que sobrepõe os demais aromas, evidencia uma época de manter o coração aberto e reconhecer as raízes com amor.
 
Os anos passaram e tive que assumir a responsabilidade de buscar crescimento profissional numa cidade bem maior que a minha, por isso, abdiquei dos prazeres de viver diretamente com a natureza. Entretanto, pude trabalhar em diversos restaurantes enquanto terminava a graduação, podendo, assim, amenizar a saudade de casa, respirando o queimar de um fogão à lenha, e sentindo cotidianamente o marcante aroma do manjericão. 
 
Dentro todos os lugares que trabalhei, o que mais mexeu comigo foi restaurante onde o senhor Tadeu é o dono. Suas comidas são cheias de personalidade e de temperos que meu avô planta com tanto carinho e dedicação. Vejo, sinto e inalo o cheiro de manjericão fresco recém embalado, e isso age como um marcapasso em meu coração, afinal, a planta vem como medida de amenizar a saudade de casa, e demonstrar que agora é o momento de valorizar as coisas simples, porém vitais à existência humana.
 
Dia desses, um amigo muito especial me contou que cultivava plantas em seu quintal, como medida de amenizar a solidão. Ele, infelizmente, decidiu se mudar e atestou que não podia levar suas plantas para a cidade destino. Portanto, gentilmente, ele me ofereceu um pé de manjericão, sem saber de minha ligação, quase que espiritual, com esta planta. 
 
Plantar, cultivar e cuidar são todas formas muito sinceras amar. E aprendemos quase que sem ver, apenas com uma pitada de tempero.
 
 
Isabel Fogaça, professora
 

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