Ritmista do metrô

Por: Everton de Paula

Quando eu era estudante universitário, participei de um curso de extensão em Paris. Estudava Língua e Civilização Francesa na Sorbonne. À tardezinha, saía da universidade, tomava o metrô na hora do rush até as proximidades da Maison des Étudiants, na Rue Madame.
 
Numa tarde desse período de cursos de verão, passei, aos empurrões, pelas portas que iriam se fechar, e me encontrei num vagão cujas luzes fluorescentes tornavam lívidos outros tantos passageiros feitos robôs. Escondidos atrás dos jornais, eles pareciam querer ficar no anonimato. “Por favor, não nos incomodem”, pareciam dizer. “Não somos verdadeiramente nós que estamos aqui.”
 
Descobri um lugar milagrosamente vago, acomodei-me nele e abri o folheto com o programa de viagem ao Vale do Loire que iríamos empreender na semana seguinte. Meu olhar se desviou momentaneamente para o homem à minha direita. Então percebi por que razão o lugar estava vago: estava ao lado de um verdadeiro excêntrico.
 
Fisicamente tinha um aspecto simples. Era um homem forte, de meia-idade, trajando camisa semi-aberta e calças que se foram deformando com as lavagens; no entanto, não era o seu aspecto que me assustava: era o que ele estava fazendo.  Estava agarrando o que parecia ser uma caixa de máquina de escrever, de cor cinzenta. Cuidadosamente a coloca entre os joelhos, equilibrando aquele pretenso tesouro com grande determinação. Finalmente, satisfeito com a posição conseguida, toma um velho par de baquetas de tambor e começa a tocar. 
 
De olhos fixos num maestro invisível, ele bate na caixa com  um entusiasmo raramente dispensado à bagagem portátil. Minha reação inicial é fugir. Contudo, ligo-me no seu entusiasmo e deixo-me vencer por seu estilo.
 
Eu já estudava música à essa época e tinha predileção por jazz instrumental. Podia ver que ele era bom. Os ritmos voavam. Os andamentos se sucediam harmoniosamente sincronizados ao balanço de seu corpo. As finas baquetas martelavam impiedosamente aquela simples caixa. Uma baqueta caiu. Ele a apanhou, procurou cuidadosamente um defeito de fabricação, acho eu. Não encontrando nenhum, retomou imperturbável o “concerto.” Que arte de atrair os presentes! Continuando a martelar furiosamente, de olhos fechados, ele joga primeiro uma baqueta, e depois a outra, acima da cabeça. Desta vez a uma altura certamente superior à sua destreza. Mas não, ele volta a apanhá-las a ambas, com um à-vontade indolente, não falhando uma só batida.
 
Ele era um artista, que nunca se põe em dúvida seu talento, nem dá atenção ao público que o assiste. Não pedia dinheiro – e também não recebia nenhum. E acho isso compreensível. Quem daria gratificação a um grande maestro?
 
Finalmente, reparei nos meus companheiros de viagem urbana. Os robôs se libertaram! Vejo à minha volta um grupo de seres eufóricos e radiantes. Sorrisos como nunca havia visto num veículo de locomoção coletivo. Todos mostrando os dentes. Sorrisos! Batendo com os pés, marcando o compasso com a cabeça, nos transformamos numa “família” pelo menos durante algumas estações a leste de Paris.
 
O nosso baterista anônimo conseguiu essa transformação em menos de cinco minutos. Ao chegar ao seu destino, ele reúne calmamente os utensílios, e parte, aceitando  meu ligeiro apertar de mãos com um solene aceno de cabeça.
 
Excêntrico? Louco? Um gênio frustrado, demasiadamente pobre para comprar uma bateria? Não sabia. Prefiro recordá-lo como o excêntrico ritmista do metrô.
 
E meu sorriso perdurou por todo o caminho.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras
 

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