Numa manhã assim

Por: Caio Porfirio

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Numa manhã assim ela apareceu. Apareceu na porta do bar, onde eu tomava um café, olhou-me tristemente e foi embora. Foi embora, andar vagaroso, olhos no chão. Olhos no chão, não se virou uma única vez.  Uma única vez olhou em frente, ajeitou o xale, agasalhou-se melhor no sobretudo. No sobretudo me agasalhei também, que o tempo estava úmido e ninguém atrás dela. Atrás dela apenas eu, que apressava os passos mais e mais. Mais e mais me aproximava dela e dela me emparelhava. Dela me emparelhava e, lado a lado, trocamos olhares. Trocamos olhares longamente, parados. Parados, não tínhamos palavras, só um sussurro: “você”, “você”. Um beijo triste ela me deu. Um beijo triste eu lhe dei. Olhando para o chão, dobrou à esquerda e se foi com os seus pensamentos. Olhando para o chão, dobrei à direita e fui com os meus pensamentos. Quase uma segunda despedida da parte dela, lembrando a primeira, saudosa e doída. Quase uma segunda despedida minha, lembrando a primeira, saudosa e doída.
 
Numa manhã assim.
 
 
Caio Porfirio, escritor,  crítico literário, conselheiro emérito da União Brasileira de Escritores

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