A fotografia

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

Se pouco mudou quanto às necessidades humanas, não se diz o mesmo da qualidade de objetos e circunstâncias que as satisfazem.  Vidas simples, soluções simples. Sofisticadas, soluções idem. Menos fotografar. Hoje bastam máquinas de resolução avançada que funcionam com simples toque em minúsculo dispositivo. O resto é automático, inclusive iluminação. Qualquer circunstância  é cenário. Depois do Photoshop  o mundo ficou mentiroso. Ninguém mais revela fotografia. Antes, fotografava-se com pequena caixa quadrada preta acionada por minúscula alavanca lateral;  esperava-se até o sol sair novamente para melhor iluminação; inventava-se cenário. Nas fotografias das famílias ricas o ajudante dispunha  as pessoas por ordem de tamanho e notoriedade. Arrumadíssimos, os mais importantes no centro, os menos atrás e nas laterais. Nas fotos das famílias populares, crianças, adultos, feios e bonitos ficavam todos juntos e  eram apenas flagrados. Após intenso trabalho de revelação, as fotos iam, devidamente picotadas nas laterais,  para os álbuns de família. Para destacar os modelos, usava-se o cobertor no fundo, pendurado em árvores ou varais de roupa. Fotografias não mentem. Se a pessoa tem foto dessas no álbum, ela já foi pobre. (Sou a lorinha da direita, por falar nisso.) 
 
 
(Lúcia H. M. Brigagão)

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