Compreeder é o de menos

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Nos tempos de colégio conheci um rapaz chamado Aldo. O sobrenome se perdeu, pisoteado pelos cascos dos anos, em sua louca e ininterrupta corrida. Ficou a figura humilde e triste de um jovem mineiro das bandas de São Tomás de Aquino. Ficou, sobretudo, a ocorrência que ele nos contava e que relato novamente, novamente assegurando que se trata de ficção verdadeira e, portanto, não admite contraditórios.
 
Aldo cursava o Clássico. A outra opção era o Científico, para os estudantes que visavam ao conhecimento das matérias chamadas exatas. Ao Clássico se dirigiam aqueles que melhor se identificavam com os estudos de humanidades. Aldo se inscreveu naquela área, pois o sonho de seus pais, antes que o seu, era ter um filho “doutor advogado”.
 
Compenetrado de suas responsabilidades, Aldo estudava todas as matérias e muito. Mas não escondia de ninguém a sua predileção pela Literatura, principalmente pelo romantismo francês.
 
E era ele quem nos contava: durante as férias, sentava-se num tamborete, na varanda, diante dos pais e declamava para eles poemas de Victor Hugo:
 
 
(...)
Enfim, o homem está situado 
Onde termina a terra.
A mulher, onde começa o céu .
(...)
 
 
Acontece que o jovem lia os textos em Francês. E seu pai, apesar de sábio na lida com bichos e plantas, era absolutamente analfabeto. Não entendia uma única palavra ouvida e, no entanto, chorava copiosamente. E o mesmo se repetia ante a leitura de textos de Lamartine, de Verlaine, de Mallarmé...
 
 Reitero: o fato é verdadeiro. É verdade ficcional, mas é verdadeiro.
 
- Está bem, aceito que é verdade. Mas qual a moral da história?
 
Geralmente essa é a pergunta do ouvinte quando relato o fato. E há, sem dúvida, uma razão para eu repeti-lo sempre. É que gostaria que todos entendessem que a Literatura não é produzida só para se obter a compreensão do leitor ou do ouvinte. É até bom que isso ocorra. Mas o autor busca, acima de tudo, um diálogo entre seu coração e o do outro pelos caminhos da Beleza.
 
Quando isso acontece, acontece a Arte, acontece um momento de comunhão do Humano.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras