Visita a um túmulo

Por: Maria Luiza Salomão

Estudando Clarice Lispector. O pretexto, aparente obrigação, na verdade escolha: o meu TCC, laço final ao curso prazeroso de fazer: pós-graduação – lato senso – em Línguas, na FACEF. 
 
Confesso; difícil embrenhar, internada, na escrita clariciana. Estou impregnada. Impressionada. Uma palavra - em inglês: overwhelmed. Particípios passados em português não me dão a exata medida: naufragada, imergida, soçobrada.  Perdida? Não, perdida não, cansada de nadar...não tem fim a travessia de Clarice ... 
 
Eu, leitora de Clarice: lia, relia, trelia, quadrilia a mesma crônica, o mesmo romance, o mesmo conto ... Leio agora quantidades dela, sobre ela, mistérios: crônicas, cartas para as irmãs, amigos, hábitos comezinhos, vaidades, ânsias sofisticadas, filosofia. Situo a história do Brasil, e a da I e II Grandes Guerras, no seu pedaço curto de vida, 56 anos.  Suas origens!
 
Ah! Origens de um escritor! Labirinto úmido, de pouca oxigenação, junto com bichos invisíveis (que todos, ordinariamente, temos), rastejantes, a enriquecer a terra, a produzir húmus, naturais, para semeaduras e plantios. Toda vida humana é assim: romance: herói e heroína: vilão e vilã: enredo: tragédia, comédia: final, sobrevivências misteriosas, morte: felizes ou infelizes. Escritor é sempre épico no engenho e na arte (vivem o que escrevem; ficção e realidade misturadas).
 
No meio do caminho das leituras (não estou pronta para a escrita), visito o túmulo de Clarice Lispector. Endereço: Cemitério Israelita do Caju, fileira G, túmulo 123. Eu, que não visito, nem visitei túmulo de ninguém, nem o do meu pai (enterrado em mim). 
 
Sei lá o que quero ...vou... 
 
Clarice parecia, ao longo de toda a intensa vida, se sentir culpada - superstição da época – por não ter “salvo” a própria mãe da doença que a matou, com o seu nascimento. Criada nessa crença antiga popular de que uma doença poderia ser curada com a gravidez (vida vencendo a morte?). 
 
Ela foi para o hospital de taxi, última viagem, contando histórias (como fazia para a mãe doente, terminal, com nove anos). Planejava a última viagem para Paris, com minúcias de trajeto, etc. e tal. O taxista embarcou na futura viagem de Clarice; queria ir... Para a corrida, que custou vinte cruzeiros, pagou duzentos. 
 
Fui de taxi. Li em voz alta, trêmula, um pedacinho de Um Sopro de Vida, página ao acaso, p. 72, 1978, terceira edição, Ed. Nova Fronteira: três parágrafos. Danada de eterna! Ela não queria ser enterrada ali. Gostei do lugar - campas horizontais, todas iguais (de cor cinzenta variável ou branca). Duas pedrinhas coloridas (seus dois filhos?) na sua lápide, branca. Clarice se salvou na escrita, sem sucumbir à morte (suicídio não aceitava); à loucura, precário “equilíbrio íntimo”.  
 
Conheci mais Rio: o Caju, ao lado de São Cristóvão; outras favelas. Meu taxista lê Clarice; anota o último endereço dela; tem três filhos: um juiz federal, seu orgulho, e o caçula, 11 anos, que não sabe o que vai ser.  
 
Psiu, eu ingênuo: eternidade é apenas agora: sempre ou nunca mais! Viva intensa mente bem!
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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