“Obrou bem, excelência!”

Por: Chiachiri Filho

Nos anos 60 do século passado, a Câmara Municipal de Franca foi integrada por pessoas combativas, polêmicas, inteligentes, destemidas e bem representativas de suas siglas partidárias e dos segmentos sociais donde emergiam.
 
Lembro-me de alguns desses vereadores, tais como: Marcos Kaluf, Fábio Liporoni, Freitas Lino, Geraldo Taveira, Ademar Rodrigues Alves, Flávio Rocha, José Martiniano, Onofre Trajano, Lancha Filho, Ivon Pereira, Edson Ferreira, Jorge Cheade e outros mais.
 
As principais siglas partidárias eram: UDN, PSP, PSD, PDC e PTB. As reuniões realizavam-se com grande afluência de público que,  não raro, preferia as reuniões da Câmara do que as sessões de cinema. Os debates eram calorosos e chegavam a ser até violentos.  Numa das sessões, o presidente da edilidade teve de interromper as discussões entre dois vereadores a fim de se evitar uma  provável vias de fato. Flávio Rocha, ex- promotor  público e ex-prefeito municipal, levantou-se e cumprimentou o presidente da Câmara pela pronta e oportuna intervenção com a seguinte expressão:
 
- Obrou bem, excelência!
 
O presidente, sentindo-se ofendido pelo vereador que, sem dúvida, provocava-o com sua ironia, repreendeu-o severamente pelo termo usado, o qual, segundo ele, feria o decoro parlamentar. 
 
Foi aí que Flávio Rocha deitou e rolou. Começou explicando que “obrar”  era um termo clássico usado por Camões em Os Lusíadas, por Alexandre Herculano no Monge de Cister e por vários outros autores da literatura portuguesa e brasileira. Disse mais ao presidente que tinha usado a palavra no sentido clássico, isto é, de fazer, realizar, agir.
 
Flávio era um dos vereadores mais cultos daquela Câmara. Além do mais, era um profundo conhecedor das leis e do regimento interno da edilidade. Por tudo isso, certa feita, tendo de se ausentar das reuniões, os seus colegas de bancada colocaram o seu retrato em sua mesa e, ao justificar a sua ausência, explicaram que o retrato exposto era para impor respeito e para lembrar aos senhores vereadores que, embora ausente, Flávio Rocha continuava muito atento aos caminhos e descaminhos das reuniões da Câmara. 
 
Para finalizar, lembro aos prezados leitores que os ilustres vereadores daquela Câmara nada recebiam pelo exercício de sua nobre missão de representar o povo da Franca. Nem salários, nem subsídios, nem gorjetas.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 
 

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