Uma história fera

Por: Roberto de Paula Barbosa

Abril de 1952. Dia claro, os raios do sol perfuravam as folhas da bananeira encravada no canto do terreno urbano, que também era crivado de outras árvores de frutas, tais como jambo, aquele dourado, oco, com perfume adocicado, fruta-do-conde, manga, ameixa amarela, caqui, que de tão vermelho e maduro, ficava transparente diante do brilho do astro rei. Era um terreno contíguo à nossa casa simples, que papai adquirira do provedor de D.Vitalina, uma centenária senhora, que vivia sozinha, sem parentes, contando com a ajuda de mamãe e dos demais vizinhos, até que Deus a chamou para junto de si. Eu e meu tio Frain, que tínhamos na época cerca de sete anos de idade, longe de televisões, videogames, carrinhos elétricos e outras parafernálias que toldam e limitam a criatividade das crianças de hoje, constantemente brincávamos de mocinho e bandido, cavalgando cavalos de cabo de vassoura, usando outros à guisa de espadas, com aventais de mamãe amarrados no pescoço como capas esvoaçantes, corríamos em meio às árvores, transpondo barreiras de montanhas, precipícios, vales, planícies, enfrentando animais selvagens, imitando as ações do Zorro e seu inseparável cavalo Sílver, o amigo Tonto, do Roy Rogers, Hopalong Cassidy, que víamos, uma ou duas vezes por mês, nas matinês de cinema, aos domingos.
 
Em uma dessas aventuras, na perseguição de animais selvagens, vimos uma onça rajada, com olhos ferinos, verdes, garras afiadas, a nos espreitar por entre as árvores frondosas, esperando a oportunidade de dar o seu bote fatal e devorar dois cowboys incautos. Ao perceber tão cruel e insaciável fera, peguei uma ferradura antiga, que perambulava há muito por aquele quintal, sozinha, sem o pé do muar que a perdeu, e arremessei-a como um boomerang em direção ao temido animal. O tiro foi certeiro, atingindo em cheio o cocuruto do felino, que imediatamente danou-se a estrebuchar e revirar os olhos. Assustados, corremos em sua direção, pegamos o corpo do animal, que ainda se remexia, levamo-lo para o canto do quintal, onde estava a bananeira, cortamos algumas folhas, e repousamo-lo. Como o bicho não acordava, e nem morria, assustados ajoelhamos e rezamos fervorosamente pedindo a Deus que não levasse o animal daquele jeito, pois as conseqüências poderiam ser catastróficas para nós, assim que sua dona descobrisse o modo como ele tinha partido desta para melhor.
 
Acabou-se a brincadeira naquele dia. Meu tio foi à sua casa e eu também me recolhi, chegando até mesmo a pegar minha cartilha do Marcos Sodré para ler, causando inclusive espanto em minha mãe, que não estava acostumada a ver tal disposição. À tardinha, quando o sol já estava se recolhendo, após um dia inteiro a nos vigiar, resolvi ir à bananeira ver o destino de tão infeliz animal. Fiquei estupefato quando não o encontrei. O danado tinha se recuperado e se mandado, deixando-me, de certa maneira, feliz. Fiquei mais feliz ainda quando, ao retornar, passei à casa da vovó, que morava nos fundos da nossa, e vi o malfadado felino no seu colo, balançando ao ritmo das pedaladas que ela dava em sua máquina de costura. Ao ver-me, arregalou seus imensos olhos verdes, preparando-se para escafeder-se pelos telhados do casario, caso eu fizesse qualquer movimento brusco, tal qual arremessar uma ferradura. Se gato sete vidas tem, esse certamente uma já perdeu. Vovó ainda comentou:
 
- O meu Chaninho parece que tá tão assustado hoje; que será que aconteceu?
 
 
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor
 
 

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