No seu quarto mágico

Por: Angela Gasparetto

Sinto cheiro de  vic vaporub no quarto. Aroma de velas tremulando.
 
Sons do  tic- tac do seu relógio antigo, relógio que marca as horas da sua eternidade.
 
Silêncios sacros, aroma de limpeza honesta.
 
Caminho pé-ante- pé no corredor todo pintado à cal e forrado de jornais. Encanto-me. Parece uma casa de boneca. Chego à cozinha e olho seu fogão à lenha todo forrado de alumínio, as panelas brilhando, um bule de café que fumega.
 
Tenho três anos e esporadicamente a visito. Ela é baixinha, usa avental limpo, olhos sorridentes, buço grande denunciando sua ascendência portuguesa.
 
Ela inspira medo, respeito, mas muito mais reverência. Nos meus três anos de inocência, sinto que esta reverência vem pela sabedoria que dela emana, um quê de autoridade secular, um muito de Vivência antiga.
 
Fico parada olhando os jornais na parede. A leitura sempre me puxa, mesmo não entendendo nada, fixo meus olhos nas letras e me reconheço desde sempre.
 
Ouço um chamado. Dou um pulo. É minha mãe do outro lado do corredor me encarando séria como quem diz: Quem mandou você sair de perto de mim? Eu tremo, antevejo discretos safanões.
 
Quando vou dar meia volta, sinto seus dedos magros me segurarem pelas mãos. Ela treme. Sinto o seu perfume que é um misto de limpeza e flor. Ela me olha com seus olhinhos miúdos, seu buço treme. Eu a encaro. É a minha bisavó materna. A dona soberana desta casa de encantamentos.
 
Ela me leva dizendo uma fala grogue, mas que é um balbucio de amor e acolhimento. E ouço mais nitidamente: “Venha, vou te benzer para que, além de esperta, você seja sempre esta menina que vê além das coisas.”
 
E eu a sigo encantada, porque só quero entrar no seu quarto mágico, de paredes brancas, de cheiro bom, de tic-tacs  da minha infância
 
 
Angela Gasparetto, formada em Administração de Empresas, trabalha em Comércio Exterior
 

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