Júlia

Por: Eny Miranda

Levanto-me da cama e sou levada por algum propulsor puramente afetivo, alheio ao domínio racional, até o quarto reservado às netas. Entro sem fazer ruído. Preparava-me para o beijo matinal, levíssimo, habitualmente depositado nos cabelos ainda adormecidos, quando sofro o impacto, o susto da cama vazia. Volto à realidade. Férias terminadas. Ela se foi.
 
Abro a janela para o novo dia, que acordou taciturno. O cinza dá à manhã o tom monocórdio de seu canto fosco e frio, apesar das notas atlânticas, bálticas, mediterrâneas entoando um céu escandalosamente azul, e da muita luz derramada nos olhos do mundo; apesar da algazarra de asas e bicos abertos cruzando o espaço ou aninhando-se entre penugens, gravetos e palhas, no alto dos galhos e dos telhados; apesar dos cálidos e coloridos aromas vindos da cozinha e da romãzeira florida no quintal vizinho. 
 
Vista com os olhos do coração, esta é uma alvorada com toques de recolhimento: o dos braços abertos e reunidos em mil abraços; o dos lábios contraídos e projetados em mil beijos; o das palavras carinhosas, ditas e ouvidas entre leituras, conversas, confidências; o dos olhares cúmplices; o das risadas abertas, francas, gostosas... vozes do amor que circula no corpo, na alma, nas seculares entranhas da grande árvore-mãe:
 
“Vovozinha, vovozinha (segura o meu rosto com ambas as mãos espalmadas), eu te amo!”
 
 “Vovó, me conta aquela história do disco voador no meio do mar! Incrível! E aquela outra, do vovô Araújo pintando o galinho com café! Hahaha... muito engraçada!”
 
“Ai, vovó, você é tão divertida...”
 
“Vovó (fazendo pose), este chá está e-xem-plar.”
 
“Nossa, vovó, queimaram as torradas? Um desastre universal!! Kkkk, dois pontos, abre e fecha parênteses.”
 
“Vovó, já reparou como o ... é lindo? Quando crescer me caso com ele. Brincadeirinha? Não! É que, por enquanto, sou pré-adolescente, lembra?” 
 
Logo depois, olhar oblíquo, jogando os cabelos para trás, entre séria e travessa, repete, escandindo o prefixo: “pr...é-adolescente!”
 
“Vovó (olhar meditativo), vou sentir tanta saudade sua...”
 
Vovó, vovó, vovó, vovó... ecoam quarto afora, e esses ecos me trazem de volta outra menininha, olhos de céu refletido, cabelos de trigal maduro, voejando pela casa; alma nos braços abertos, minúsculas asas na pontinha dos pés. A de agora tem olhos de mar e longos fios de mel confundindo-se com os cabelos; dança com os pés no chão e a alma na pontinha do espaço - as asas cresceram e estão prestes a se abrir em voo. Ambas, a de antes e a de hoje, se entrelaçam. Nelas, tudo está vivo, luminoso e musical. Toda a poesia do mundo se oferece em cada gesto, em cada fala, em cada riso, abraço, beijo... que tento redesenhar com as cores desta manhã.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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