História de família

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Estranha a vida de Eurípedes, vivendo sozinho, numa casinha humilde, mas mobiliada e arrumada como se estivesse, sempre, esperando por alguém. A tevê e o celular são seus companheiros inseparáveis nas horas de descanso, pois a lida no campo requer trabalho diário e exaustivo. Cuida das criações do patrão, do cultivo da horta e do jardim da senhora que preza muito sua dedicação às fileiras de hortênsias, roseiras e agapantos, plantados em frente à casa, rodeada de varandas arejadas e confortáveis. Naquela noite quente de lua cheia , enquanto proseávamos, perguntei sobre sua vida quando jovem, ele hesitou um pouco e depois respondeu:
 
— Sou um homem de sorte, pois tive um grande amor. Eu a conheci na pracinha da cidade, em dia de festa e como seus pais não consentiriam no nosso namoro, combinamos de fugir no domingo seguinte. Contratei um carro de aluguel dizendo que ela era minha irmã e fomos para a fazenda onde eu trabalhava. Estendi um cobertor no chão do meu quarto e passamos nossa primeira noite juntos lá.
 
A curiosidade me fez interrompê-lo, queria mais detalhes sobre a moça.
 
— Era muito faceira e realmente a amava muito, mas logo depois recebi a visita do pai dela e do delegado. Levaram Celinha e fui preso, direto para a delegacia, sob a condição de só sair de lá casado com ela, pois era o costume da época. E casei, vivemos muitos anos bem felizes.
 
— Onde ela está agora? Vocês tiveram filhos? _ insisti.
 
— Sim, um menino forte que não vejo há vinte e sete anos. Um dia amaldiçoado, tendo me excedido na bebida, provoquei uma briga terrível e ela foi embora, levando Euripinho. Há pouco tempo, tive notícias de que Celinha estava muito doente, morando com meu filho, numa cidade bem longe que eu não sei nem onde fica.
 
— Ah! Então é por isso que vive sozinho, sem esperança de ser feliz novamente, exclamei conformado.
 
— É; hoje, meu amor é a terra e a mãe natureza, quando semeio e imagino os grãos inchando, crescendo e rasgando a terra; quando vejo a planta surgir rígida e crescer rapidamente meu coração transborda de alegria; quando surgem as flores e logo depois os frutos,  vejo a mão de Deus abençoando tudo.
 
Esta conversa tivemos na varandinha de sua casa e foi interrompida pelo som do telefone ao qual ele atendeu rapidamente. Uma emoção muito forte tomou conta dele, mal conseguia conversar, sua voz estava trêmula. Apenas o ouvi dizer: 
 
— Pode vir quando você quiser, Euripinho; seu pai está aqui, sim, traga sua mulher e minha netinha.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora

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