O papel do papel

Por: Sônia Machiavelli

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Quando o alemão Gutemberg, em 1436, associou-se a João Riffe em Mainz, para criar uma oficina tipográfica, empresa à qual se juntaram depois dois Andrés- o Dritzbsehen e o Heilman, ele não podia avaliar o alcance extraordinário de sua invenção, a impressora. Se seu propósito inicial fora encontrar um modo de reproduzir textos de forma rápida, pois o impressionavam o trabalho moroso, artesanal e exigente dos copistas, os 200 exemplares da Bíblia de 42 linhas ( assim chamada porque o número definia a estrutura de cada uma das 642 páginas de exemplar),devem ter-lhe ensejado grande gratificação. Tinham sido necessários dez anos de tentativas até imprimir a primeira e o êxito imediato sinalizou, com a mudança do modo de acesso à leitura, um crescimento intelectual espantoso. O livro não era mais objeto só da nobreza e da elite endinheirada. Seria estopim de muitas transformações sociais.
 
Muito mais que baratear livros e aumentar de forma extraordinária o número de leitores, propiciando lazer, expandindo ideias e promovendo reflexão, as possibilidades oferecidas pela impressão rápida e de custo acessível iriam mudar a face do mundo civilizado, democratizando a informação pela via dos jornais. Entretanto, para que isso acontecesse, foi preciso que décadas se somassem; na verdade, que mais de um século se cumprisse, até que começassem a aparecer por volta de 1590, em Praga, Antuérpia e Colônia, os primeiros exemplares do que seria o mais importante produtor de informações até este século. Na impossibilidade de estabelecer exatamente as datas de circulação, o Museu de Gutemberg elege como primeiro jornal o Relation, que passou a ser conhecido em Estrasburgo a partir de 1605 e tinha como criador Johann Carolus. Foi ele quem traçou o perfil básico de um periódico e conferiu rumo à publicação, desde a sua origem destinada a veicular notícias de interesse imediato. Poucos anos depois, Inglaterra, França e os mais importantes reinos da Itália ofereciam diversos títulos aos leitores. Em Nápoles surge uma publicação destinada a informar chegada e partida de navios, preços de alimentos e atividades portuárias. Custava uma gazeta, palavra que ultrapassou o sentido monetário e passou a nomear o produto. Desde então, milhares de gazetas apareceram por toda parte, da Europa às Américas. A estas aportaram os jornais primeiro nas colônias britânicas, em seguida nas espanholas, por fim no Brasil. Entre nós, foi só com a chegada da família real portuguesa e a abertura dos portos às nações amigas que a imprensa se fez presente em 1808. De forma tímida, mas atraindo rapidamente interesse e suscitando discussões, o Correio Brasiliense, editado em Londres, chegava um pouco defasado em relação aos acontecimentos. Mesmo assim foi importante e permitiu aos brasileiros entrarem em contato com algo até então inédito. Rapidamente outros títulos começaram a pipocar e ganharam características diferenciadas das publicações europeias. 
 
Assim, se consideramos as datas estabelecidas por historiadores, o jornal tal e qual ainda resiste tem 410 anos de história no mundo e 207 de Brasil; portanto, Franca pode se orgulhar do seu centenário Comércio. O uso que faço do advérbio ‘ainda’ deriva de minha convicção de que estamos no final de um processo de mudança radical de paradigma. O papel, que veiculou uma quantidade inenarrável de fatos e notícias, vai chegando ao fim na sua função específica de suporte à palavra impressa. Ilustram esta minha certeza alguns acontecimentos recentes no meu cotidiano onde pude atestar diretamente o avanço das novas tecnologias e seu poder de aliciamento. Meu neto João, que acaba de completar cinco anos, descobriu sozinho no último domingo a facilidade que é enviar uma mensagem de voz e desconfio de que será assim que vamos a partir de agora nos comunicar à distância pelo Whatsapp. O filho de uma sobrinha, Guilherme, mais novo que João, apropriou-se da senha da mãe ao vê-la digitar números e letras no teclado, memorizou-os, e, na ausência dela, abriu fácil a página. Outra criança da família, Eduardo, o caçula dos três, há tempos baixa sozinho joguinhos infantis no seu celular. Na quarta-feira, ao checar com meus alunos da Academia de Artes se tinham lido os títulos que eu havia sugerido nas férias, descobri que algumas meninas, duas de nove anos, Maria Eduarda e Cecília, os tinham acessado a partir de um aplicativo que, segundo elas, disponibiliza “quase todos os livros do mundo”. No mesmo dia, ao passar uma lição para casa, com o objetivo de ampliar o vocabulário das crianças, vi várias mãos levantadas. O que queriam perguntar? Se poderiam pesquisar no Google.
 
Camões, a respeito das mudanças que nos transformam desde sempre, disse no primeiro quarteto de soneto célebre: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/ Muda-se o ser, muda-se a confiança;/ Todo o mundo é composto de mudança,/ Tomando sempre novas qualidades.” E encerrou assim o poema: “E afora este mudar-se cada dia,/ Outra mudança faz de mor espanto,/ que não se muda já como soía.”
 
Viver é desacomodar (se). Isso significa renúncia ao conforto conquistado e energia para a busca difícil do novo. O papel do papel impresso está chegando ao fim. Entramos em outra era onde a comunicação se faz de jeito instantâneo e globalizado. Se não ousarmos, a fossilização se tornará inevitável. Darwin mostrou que no processo evolutivo das espécies, não foram as mais resistentes que sobreviveram, e sim as que criaram jeitos de se adaptar. Carl Sagan foi taxativo: “A regra é a extinção. Sobrevivência é exceção”.
 
A partir de hoje, este caderno circulará mensalmente no impresso, todo terceiro sábado de cada mês. Nos outros sábados estaremos no Portal GCN. Sempre é bom lembrar que as plataformas mudam, mas o jornalismo e a literatura continuam com sua mesma essência, que se para o primeiro é incomodar o poder, para a segunda é inspirar os seres humanos na direção do sonho e na procura daquela humanidade que a palavra do escritor almeja incessantemente revelar em toda sua variedade, riqueza e vastidão.
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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