Dedo duro

Por: Chiachiri Filho

A Presidenta Dilma manifestou-se contra a delação, quer seja ela gratuita ou premiada. Para ela, o delator é um covarde, um sem caráter, um ser execrável e desprezível. A Presidenta tem lá os seus motivos. É bem provável que foi um dedo duro que a lançou nos porões da ditadura quando ela guerrilhava pelas ruas do país. Nos subterrâneos da ditadura ela comeu o pão que o diabo amassou. Jovem, ainda muito jovem, foi encarcerada, torturada, reprimida em suas idéias e ações. Melhor sorte tiveram o Zé Dirceu, o Zé Serra, o Aluisio Nunes, o Fernando Henrique e tantos outros mais ladinos que acabaram fugindo para o exílio.

Realmente, os anos de chumbo constituíram período sombrio e triste de nossa história. Foram muitos os presos políticos. Foram muitas as violências e o desrespeito contra os direitos humanos. Foi um tempo de terror, desconfiança e medo. Foi uma época em que os delatores gratuitos espalhavam a insegurança e exerciam com satisfação a sua função detestável. A deduragem era ampla , geral , irrestrita , recíproca e perversa.

Nos primeiros anos do regime militar, logo quando Castelo Branco tomou posse do poder, muitos esquerdistas, socialistas, comunistas e assemelhados foram chamados na Delegacia de Polícia para prestar depoimento. Em Franca, cidade de pouco mais de 60 mil habitantes, a turma da esquerda era plenamente conhecida e fichada. Dentre os vermelhinhos, destacava-se o “17”, filho do Sr. Mendes, um alfaiate trabalhador e muito conceituado na cidade. O “17” era uma figura. Moço idealista, simpático, cordial, ele só perturbava um pouco quando tomava umas cachacinhas a mais. Nas assembléias estudantis, ele gostava de se intitular representante da célula francana do Partido Comunista. Por esta e por outras, “17” foi um dos primeiros a prestar depoimento na Delegacia. Não foi preso e nem torturado. Somente foi aconselhado a esquecer a sua utopia. Posteriormente, comentando o seu depoimento com os colegas, “17”, sorridente, disse:

- Quando me perguntaram quem eram os meus comparsas, eu dei o nome de todos os direitistas que conhecia”.

Sem dúvida, a deduragem é uma atitude ignominiosa. Porém, a delação que está irritando a Presidenta é outra. Não é uma delação vazia ou gratuita. É uma delação premiada em que o delator abre a boca para salvar a sua pele. É, podemos afirmar, uma delação saneadora porque graças a ela o povo brasileiro está tomando conhecimento do assalto do qual foi e continua sendo a grande vítima.

Quem te viu e quem te vê: os presos políticos de outrora, longe da pureza de seus sentimentos e esquecidos dos devaneios de sua juventude, transformaram-se nos políticos presos de hoje que, juntamente com os empresários capitalistas, sequestram o patrimônio da Nação.
 

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