Emily Dickinson (Ou sobre o estranhamento diante do novo)

Por: Sônia Machiavelli

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No prefácio ao livro de Emily Dickinson, que tem por título o primeiro verso de um de seus poemas mais conhecidos, Não sou Ninguém ( Editora Unicamp), Augusto de Campos afirma: “O tradutor de poesia tem algo de um intérprete musical, daqueles que voam livres e, imprevisíveis, fazem-nos ouvir de novo, como nunca ouvíramos, a obra do compositor.”

Se isso é válido para toda tradução de poesia, no caso de Emily Dickinson a tarefa é desafiadora. Muitos desistiram no meio do caminho; poucos se deram bem na empreitada. Em língua portuguesa, Augusto de Campos foi um dos que brilharam ao mergulhar nos versos e nas cartas- outra expressão literária dessa missivista compulsiva- transliterando poemas de beleza impactante pela concisão e intensidade. A escritora norte-americana continua fecundando o espírito do leitor com questões atemporais: “Muita Loucura faz Sentido _ a um Olho esclarecido_ Muito Sentido – é só Loucura_ É a Maioria/ Que decide, suprema_/ Aceite- e você é são_ / Objete- é perigoso_ E merece uma Algema.”

Nascida em 1830 na puritana Amherst, Massachussets, Dickinson viveu 56 anos. Nunca deixou a casa da família - o pai, advogado respeitado; a mãe, dona de casa discreta. Tinha irmã, que também não se casou, irmão e cunhada- esta, sua vizinha, inspiradora de muitos poemas e destinatária de centenas de cartas. Saiu poucas vezes da cidadezinha para ir rapidamente a Boston e Washington. Cursou por um ano, aos 17, seminário feminino que abandonou depois de se recusar a declarar publicamente sua fé. Escreveu desde a infância e guardou tudo em baús que só foram abertos depois de sua morte. A fase madura de sua poesia começa aos trinta anos. Considerada hoje uma das maiores poetas norte-americanas, não obteve em vida o mínimo reconhecimento. Ausente da cena literária (e da vida cotidiana, pois vivia quase reclusa em seu quarto) tornou-se, como disse um biógrafo, “ilha cercada de deserto”.

Bem que ela tentou, por algum tempo, publicar. Mas apenas dez poemas ganharam visibilidade nas páginas de jornal local. Sem entender que tanto a forma como o fundo dos poemas de Dickinson sinalizavam o surgimento do novo, marcavam com signos evidentes a ruptura com o Romantismo, anunciavam a maneira renovada de traduzir sentimentos de Mundo, um professor de literatura, Thomas Higginson, recusou os primeiros poemas que lhe foram enviados pela autora e a aconselhou a desistir da literatura. Mesmo depois de sua morte, quando se descobriu o rico material que ela produzira, os que reuniram seus poemas na primeira edição corrigiram os versos, na tentativa de formatá-los no modelo tradicional. Para encaixar os poemas nos moldes convencionais, os primeiros editores retiraram as maiúsculas com que a poeta grafava muitas palavras; eliminaram os constantes travessões que são imprescindíveis aos fundamentos dos poemas; forçaram rimas que não existiam e detonaram a pontuação que exerce função expressiva essencial.
Ou seja, mutilaram a obra, insensíveis à liberdade com que a poeta usava a sintaxe, indiferentes ao seu ritmo peculiar, ignorantes a respeito da densidade do léxico com que ela anunciava, com um século de antecipação, o modernidade na literatura: “ Banir a Mim _ de Mim_ / Fosse eu Capaz_/ Fortim inacessível/ Ao Eu audaz_/ Mas se meu Eu_ Me assalta_/ Como ter paz?/ Salvo se a Consciência/ Submissa jaz?/ E se ambos somos Rei/ Que outro fim? / Salvo abdicar-/ Me de Mim?”

A poeta foi discriminada por sua originalidade. O novo causa estranhamento, assusta, pode apavorar, quase sempre é rejeitado no primeiro momento. Redescoberta em seu valor inestimável um século depois de sua morte, o crítico T.H. Johnson organizou-lhe em 1955 a edição crítica completa (1775 poemas). Dickinson passou a ser revisitada e resgatada por editores e se tornou conhecida por número crescente de leitores. Sua poesia vem sendo aos poucos traduzida para outros idiomas e analisada criteriosamente por especialistas em literatura, surpresos com os níveis polissêmicos de versos que se mostram ao mesmo tempo secretos e expansivos; sérios e irônicos; marcados pela abstração e especulação metafísica; formulados de jeito cortante e definitivo: “A dor_ expande o Tempo_/ Eras se enrolam dentro da/ Circunferência/ De um só Cérebro_ / A Dor contrai_ o Tempo_/ Num mero Tiro? / Milhões de Eternidades/ Cabem num suspiro_”

Emily Dickinson inclinou-se sobre o mistério da falta questionando a morte, a natureza, a alma, Deus, a existência. Não os contemplou do exterior, como o faziam os primeiros românticos, antes mergulhou nos temas com inquietação e deixou que suas vivências afluíssem pelo prisma de sua inexaurível curiosidade e fossem traduzidas em relações inesperadas de palavras, aproximações inusitadas de coisas e uso de grafia particular onde a pontuação é fundamental para traduzir o espaço vazio, a ausência, o hiato, a lacuna impossível de preencher- entre palavras na folha em branco, por exemplo. Diz a renomada crítica Claire Malroux que “o Nada perseguia Emily Dickinson, como perseguiria Mallarmé”. E completa: “ Blocos separados por travessões, os versos alçam o espaço e se mantêm suspensos nele, como constelações musicais e semânticas, deixando o sentido circular em todos os sentidos, como o ar.”

A poesia desta poeta norte-americana mais que emociona. Ela alumbra. Quando diz, por exemplo: "Tive uma Joia nos meus dedos- / E adormeci-/ Quente era o dia, tédio os ventos- /”É minha”, eu disse.- // Acordo e meus honestos dedos/ (Foi-se a Gema) censuro-/ Uma saudade de Ametista/ é o que eu possuo-"

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