Várias mulheres

Por: Angela Gasparetto

Por vezes sinto que dentro de mim moram várias mulheres.
 
Uma delas é uma dama antiga! Perdoem-me a presunção. Mas mora.
Várias vezes me pego levantando a barra da calça do moletom para descer uma escada correndo e neste ato não estou levantando uma barra de calça e sim um vestido longo, todo de cetim ou voil, florido de preferência, elegante na alma daquele tempo.
Corro minha alma pelas escadas velhas da casa antiga segurando este vestido de dama frágil. Neste ato espero intimamente que no fim desta escada esteja lá meu cavalheiro à espera, chapéu às mãos, gestos elegantes.
 
Mas lá dentro de mim também mora uma jovem rebelde, de jeans rasgados, andar descompromissado. E basta vesti-los, mesmo com blazer elegante preto, com este look pretensioso a casual, para surgir a moradora meio hippie, basta um olhar desatento àqueles rasgos de calça premeditada.
 
Dentro de mim mora a criança lúdica, de balanços feitos de pneus velhos, de chuvas na estrada de terra, de jogos no terreirão de café e de caminhadas por longas estradas de eucaliptos centenários.
 
Mas também mora dentro de mim a mulher fatal, de vestidos a anos 50, costas de fora, sapatos pontiagudos, ouvindo Marvin Gaye em frente ao espelho.
 
Tem dias que mora a diva de cinema italiano, vestidos de poá, batom vermelho de beijos e intenções inimagináveis.
 
E ocasionalmente corre por dentro das veias o ser de jaquetas e botas de couro, relógio masculino, cabelos ao vento.
 
Moram, moram dentro de mim várias mulheres. Elas são o elo da magia que traça uma identidade de fantasia lúdica dentro do real possível de todos os dias.

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