Zás-trás

Por: Eny Miranda

Tudo aconteceu assim, num zás-trás.

Distraída, olhava o céu, com seus bordados em mil pontos de cristal, sentindo-se, na verdade, menos atraída por ele do que pelo salobro e sonoro abraço daquele mar, que a envolvia e seduzia; mar que se alongava diante dela, quase sinistro, se não o soubesse tão belo, com sua tez macia e traiçoeira, suas imensas grutas submersas, suas milenares histórias de poder e mistério, sereias e solidões, e que neste momento era só um oco a se confundir, nos longes invisíveis e inalcançáveis, com o oco do céu. Mar que, na orla próxima, era abismo líquido a encrespar e enrolar a pele, a erguer o peito e abrir o seio de espumas sobre a areia.

É certo que gostava de observar o céu noturno, debruçada naquela janela do décimo andar: punha-se, então, a admirar os astros em seu deslocamento, à espera de que algo diferente acontecesse; na esperança de que, de repente, tudo estremecesse e se cristalizasse em breve susto espacial, porque uma sereia ascendera das águas e fora colher estrelas para dispô-las nos cabelos. É fato que adorava acompanhar o surgimento da Lua, no limite entre água e ar, e ver sua ascensão no espaço. Também é verdade que, muitas vezes, nas noites de tempestade, estivera ali, paralisada entre o medo e o êxtase, hipnotizada pelos raios que, em seus repentinos cortes na pele negra, dela expunham a carne fulgurante, prenunciadora de estrondos terríveis. Ali, perdia a noção do tempo.

Hoje, porém...

Assim estava, pensativa, quando, de repente, no meio daqueles milhões e milhões de pontos luminosos, no meio daqueles olhos insones que, de tão longe, também a miravam, um deles chamou a sua atenção. Até hoje não saberia dizer por que fora exatamente aquele. Fixou nele o olhar, imaginando mesmo que, por vezes, entre as costumeiras chispas azuladas, parecia emitir outras, de tons diferentes - ora amarelos, ora avermelhados... Bobagem. Os olhos estavam saturados de fagulhas claríssimas pulsando naquele fundo negro, o que poderia gerar a ilusão de estar vendo outras cores. E eis que, subitamente, o tal pontinho interrompe a emissão dos sinais, suspende o envio daquela mensagem interminável, daquele código de toques, eternamente brotado das estrelas em noite livre de nuvens e de lua. E eis que se desloca num risco cintilante, a uma velocidade inimaginável. E se detém, de imediato, em outra posição, bem distante da anterior.

O coração dispara, os pensamentos se atropelam. Só o susto estanca, grudando naquele pontinho do espaço dois olhos arregalados, segurando na garganta uma voz sufocada.

O que é? O que não é? Como foi?

E ainda nem se refez, quando outro deslocamento, do mesmo olhinho aberto em vermelhos e amarelos (além dos azuis), acontece, nos mesmos moldes do anterior. E depois outro, e mais outro. Quatro, ao todo, sempre longos, mas rapidíssimos, quase impossíveis de serem acompanhados por esses nossos limitados olhos terrenos, e espantosos e inesperados o suficiente para instigar nossa fecunda imaginação.

Seria aquela “estrela” uma sereia saída dos mares (a tal, vaidosa, que vai em busca de diamantes para enfeitar os cabelos)? Uma ondina insatisfeita com nossas águas? Uma nereida, uma medusa celeste?

Um OVNI?!!

É quando se lembra de gritar o nome do marido, “depressa, vem ver uma coisa estranhíssima!” E já impaciente: “Anda, vem logo!”

- Onde? Ele pergunta.

- No céu.

- O quê?

Como mostrar, como explicar, se tudo está como sempre esteve?

Incontáveis estrelas piscam sobre o negrume oceânico, em uma noite muito limpa, vista daquela janela, no décimo andar de um prédio à beira-mar.

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