Mamãe

Por: Roberto de Paula Barbosa

Geraldinho é um sujeito de pequena estatura, mas devido ao seu trabalho de sol a sol, no cabo de guatambu da enxada e do alvião, acabou adquirindo uma compleição robusta e musculosa, necessitando o seu corpo de sustância para aguentar o árduo esforço nos campos, onde o trabalho braçal é o que impera em sua lida cotidiana.

Acorda diariamente com o cantar do galo e, antes que os primeiros raios de sol venham bafejar-lhe os olhos empapuçados, levanta de um só pulo, veste suas calças sovadas e a camisa esgarçada, calça as botinas corroídas, bebe de um só gole o café requentado de um bule que habita sobre a chapa de um pequeno fogão de lenha, cujo borralho nunca se apaga entre as cinzas, ombreia seus apetrechos de trabalho e parte rumo a obrigação do dia.

Porém, antes de seguir direto à sua faina diária, vê com o rabo do olho no terreiro um grande capado que jaz sob uma pilha enorme de palhas secas de milho, prestes a ser sapecado, e que o pai tinha matado um pouco antes de o galo cantar, para servir de sustento da família durante os próximos dias. Sua imaginação voa para a pele bem cozida com feijão; a costelinha apertada na panela de ferro sobre o fogão a lenha, servida com mandioca amarela macia; os torresmos crocantes dissolvendo-se na língua; as postas de pernil recheadas com carne moída e conservadas na gordura, dentro de grandes latas; os pés, mãos, papada, orelhas e rabo cozidos no meio do feijão preto; começa a antever as linguiças purinhas de porco, inclusive a mão de obra, onde foram aproveitadas as carnes menos nobres e as tripas lavadas com cuidado e muito limão, penduradas no arame estendido sobre o fogão de lenha, sendo defumadas devagarinho; os chouriços e os cudiguins caprichados e ainda sem esquecer o delicioso sarapatel elaborado com muito arinho pela mãe, aproveitando todo o resto do porco, ficando de fora apenas o grito que ele não ouviu.

Abraçado aos seus instrumentos, inicia sua caminhada até à roça, todo alegre e com as lombrigas felizes e saltitantes em sua barriga, imaginando o que a mãe vai lhe mandar no caldeirão do almoço, que lhe é levado pelo irmão mais novo, assim que o sol estiver começando a esquentar.

Chegada a hora, afaimado, os olhos espichados na direção da tranqueira, vê aproximar-se o irmão com o caldeirão embrulhado em um pano de prato e amarrado com uma goma elástica para que a tampa não caia. O irmão chega e diz:

- Óia Gerardinho, a mãe mandô dizê que num deu tempo de arrumá mistura. Ela feiz o que tinha.

Geraldinho, com grande expectativa, desamarra a goma, desembrulha o pano, abre o caldeirão, vê o conteúdo, depois olha para o irmão, mas para não demonstrar os olhos úmidos de frustração, diz:

- Eh! Eh! Mamãe é mamãe memo! Qué coisa mió do que jiló com couve???!!!

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