RUN - 0055

Por: Breno Carrijo

Estou sentado no banco de um carro, dirigindo há horas. Estou em fuga. O próximo pedágio só daqui a cento e trinta quilômetros. A cancela sobe. Engato a primeira. Guardo as moedas do troco no compartimento próximo ao câmbio. Segunda. Notas fiscais dançam por cima do painel. Mudo para terceira. Fecho os vidros e o que consigo ouvir é um leve ruído do motor. Cento e vinte e cinco cavalos fortes me arrastam. Mais um pouco e... Passou da hora de pôr a quarta. Acelero mais. Quinta marcha e o carro vai indo. O automatismo total do comboio a minha frente. A falsa ideia de liberdade da autoestrada. Todos os automóveis, todos metálicos. Estão quentes: motores em movimentos incessantes. 

Seguimos em fila indiana, cortando rodovias. As rodovias que cortam as periferias das cidades e são como espelhos, duplicando a paisagem repleta de casebres até onde a vista alcança, de ambos os lados. As rodovias deixando à mostra as concessionárias de carros de luxo das cidades mais pobres. E nomes de gente que nunca ouvimos falar dados a grandes viadutos. Mas é a geograficidade que me atrai, e outros aspectos ainda mais intricados do urbanismo e da (i)mobilidade urbana que me escapam com a mesma velocidade que os pneus desse carro giram. Ando mais alguns quilômetros, vejo apontar da barreira de proteção os telhados das casas, torres das igrejas, estruturas metálicas dos postos de combustíveis. Olho tudo com olhos de quem nunca viu nada antes. A paisagem hermética, a forma como o homem resolveu construir o mundo. Ando mais um bocado e é aí que avisto a área rural. As plantações. Cafés floridos, pés de cana, arrozais, grandes silos para estocagem. Eles fazem parte da moldura para um retrato meu e de meu carro, assim: na estrada; vistos de cima. E daí na minha cabeça todas as imagens de satélites já vistas. Imaginando o momento exato da captura fotográfica das mais diversas regiões do globo provavelmente provenientes do Landsat 8, enviado para o espaço em 2013, e pensando na simplicidade que parece ter se incorporado ao mundo depois de recebermos as inúmeras conquistas dos mais de dois mil satélites em órbita. Saber que por conta da audácia humana eu e mais quantos outros forem estaremos congelados durante um bom período no meio de uma BR qualquer, estáticos no espaço tempo virtual até a próxima atualização dos mapas. Além, a possibilidade de contemplar o retalhamento do solo, matiz que vai do verde escuro ao claro e deste à cor de nada.

À margem da estrada, quilômetros de terra cobertos por pequenas mudas: penso no Brasil como o celeiro do mundo, como o quinto grande país em extensão. E em todas as facetas dessa Mãe que jamais conhecerei, por mais que eu acelere. Meu país como parte fundamental para o desenvolvimento do ocidente. Da economia mundial. O pensamento se ajeita nas curvas. Muda conforme o volante gira. Desde o sentimento de deixar tudo e todos, a realidade á qual eu pertencia, o combustível que foi queimado, os giros ininterruptos dos satélites artificiais e toda a gama e nova forma de ver o mundo a partir deles, e todo o tipo de coisas, enfim, que só a engenharia aeroespacial é capaz de dar a humanidade.

Mantenho a velocidade. Já não ouço há tempos o mundo ao meu redor, apenas o silêncio da fuga. A imersão em pensamentos aleatórios enquanto se dirige sozinho é profunda e inevitável, como se não existisse mais vida ao seu redor, o que existe no momento em que se dirige é apenas o movimento de ir – seja para onde for. Constato a eficácia do sistema de abafamento sonoro dessa marca japonesa. E penso nos veículos montados no Brasil. Na diversidade de tecnologias possíveis, invisíveis, lucros vindos de estratégias indizíveis. Estou sentado no banco de um carro, dirigindo há horas. Estou só. Estou em fuga. Dirigir é preciso, viver não é preciso. Stop. Foi a vida que parou; não o automóvel.
 

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