Um anjo da guarda

Por: Angela Gasparetto

Como todos os domingos, sentadas na sua copa antiga, tomamos café e ela começa contar pelacentésima vez a sua história de quando era jovem e foi embora do interior para São Paulo.

Ouço com atenção como se fosse a primeira vez que me conta. Seus dedos tremem levemente e sua voz remonta ao passado distante:-

Começa ela: "Então, um dia decidi ir morar em São Paulo. Tinha 20 anos e pouco dinheiro para sobreviver numa cidade grande. Como tinha uma família amiga morando lá, escrevi pedindo para pagar pensão a eles até me instalar adequadamente.

No dia da viagem, carregando a grande mala, mais pacotes, fui acompanhada de minhas amigas da cidade. Elas faziam uma farra.

Aliás, para viajar, peguei um objeto de cada amiga e irmã. Uma blusa da Josefina, o casacão da Maria e a mala da Alice.

Entrei no trem. Naquele tempo era de trem. A época? Um pouco antes do início da segunda guerra. No trem havia poucas pessoas e eu me sentei no canto, coloquei minha mala ao lado e aguardei a saída.

De repente, com tantos bancos desocupados, sentou ao meu lado um jovem bem apessoado. Eu quieta. Ele então virou para mim e perguntou:- "Vai para São Paulo?" e eu séria disse: "Parece".

Minha frieza não o intimidou. Novamente perguntou se tinha parentes lá. Eu menti e disse que tinha um tio. Ele aquiesceu e a viagem continou. Quase não conversamos durante o trajeto.

Quando cheguei a São Paulo, desembarquei e fiquei aguardando meu amigo que viria me buscar. E nada dele chegar. O desconhecido do trem disse que aguardaria comigo a chegada do meu tio.

Como ele nunca chegou, o desconhecido pediu para ver o endereço. Eu mostrei. Ele disse: "Olha, é pertinho daqui. Basta a gente tomar este bonde logo ali, mais 5 minutos, andar algumas quadras, é uma casa amarela."

Pensei comigo, como ele sabe que é uma casa amarela? Nem eu sabia que era. Enfim, o segui porque não tinha alternativa.

Depois de percorrido o trajeto, chegamos a uma casa amarela e na janela já vislumbrei a minha amiga que me acenou.

Assim que ela abriu a porta, nos cumprimentamos e eu apresentei o desconhecido, que por sinal não sabia o nome. Ela o convidou para entrar, tomar um café e ele: "Não, muitíssimo obrigado. Minha missão já está cumprida. Seja muito feliz, disse e virando-se para mim acrescentou: "Tenha certeza que logo logo vai arrumar um emprego". Qualquer dia eu volto".

“Ele nunca mais voltou, nunca mais eu o vi. Arrumei um emprego no dia seguinte.”

“ No entanto, passados 70 anos nunca esqueci a aparência daquele distinto jovem que me ajudou assim que cheguei à São Paulo. Parece que o vejo agora na minha frente, bem vestido e atencioso.”

“ O coloco em minhas orações todas as noites. Tenho certeza de que foi um anjo que Deus colocou no meu caminho aquele dia. E engraçado, mesmo se dizendo viajante, observei que ele não portava mala nenhuma.

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