A Inquisição em foco

Por: Luzia Izete da Silva

Apesar de discorrerem sobre tempos e lugares distintos, Carlo Ginzburg e Neusa Fernandes abordam em dois livros, respectivamente O Queijo e os Vermes (Cia das Letras) e A Inquisição em Minas Gerais no Séc. XVIII (Editora Mauad) o tema da Inquisição perpetrada pela Igreja Católica por longo tempo. Por um lado, o livro de Ginzburg nos apresenta um contexto em que romper com o pensamento e ir contra a doutrina católica  era ter a vida arruinada, em todos os sentidos. Um moleiro, sendo conhecedor das letras, passa a interpretar, a seu modo, o mundo espiritual, calcado, conforme conclusões do autor, nas crenças pagãs tradicionais vigentes na Europa até então. O limiar do século XVI estava conturbado, numa Europa sacudida pela “descoberta” do Novo Mundo- a América – e a heresia de Martinho Lutero- a única que deu certo! Outras heresias, não menos perturbadoras da rigidez católica, permeavam as sociedades do Velho Continente, numa clara demonstração de que o desnível entre doutrina cristã e as cosmologias camponesas, fazendo uso do termo empregado por Ginzburg, fazia  insurgir grupos heréticos, conforme a  Igreja assim os caracterizava.
 
A análise de grupos ou indivíduos isolados como o caso do moleiro Menocchio, da região do Friuli, na península Itálica, sobre cujo processo inquisitorial  Ginzburg se debruçou, nos leva a refletir no quanto o catolicismo cerceou  a liberdade de pensamento, sacrificou corpos e mentes para que não pensassem por si, tolheu a autonomia do fiel em  investigar por si os fundamentos religiosos. Sem dúvida, temos consciência de que todo acontecimento deve ser analisado à luz do contexto, o historiador que perder este foco desvia-se do objetivo de seu ofício, a crítica perde-se em anacronismos. No entanto, Ginzburg também paraleliza  a análise: por que a Igreja  não compreendia  a reelaboração, a materialização da teoria pela boca do moleiro? Podemos responder com o próprio contexto: a proibição cabal de interpretações que pululavam além da fronteira clerical. Elementar e tautológico, sem dúvida! Porém, se esquecermos um pouco o contexto podemos indagar o porquê de a Igreja levar a julgamento inquisitorial as impressões religiosas que partiam de pessoas simples como Menocchio, que tentavam entender o que liam, filtrando e materializando a seu modo as teorias e dogmas da Igreja. Julgado, verificava-se se o herege estava apto à tortura. Impingia-se ao réu a infâmia do hábito penitencial, marcando-o com a obrigação do uso perpétuo. Tal atitude calamitosa por parte da Igreja nos faz pensar num exemplo muito tosco: alguém discutiria a pena de morte com uma criança de três anos? Disparidade de discurso (antes que as pedras se levantem!). Não há contexto ou relatividade que justifique a Santa Inquisição. Com a vida arruinada, Menocchio foi levado à execução por ser reincidente  no crime nefando de heresia, ou seja, querer entender por si próprio os mistérios da religião que seguia. Em 1598 foi executado, tendo passado quinze anos de sua vida pelos tormentos inquisitoriais.
 
Neusa Fernandes também analisou longamente os casos de heresia dos cristãos-novos nas Minas Gerais do século XVIII. Vítimas de acusações, muitas vezes falsas, de práticas judaizantes, muitos caíram nas malhas da Inquisição portuguesa, que lançou seus tentáculos além-mar. Fernão Dias, famoso bandeirante e homem de muitas posses nas Gerais, teve seu filho no rol dos judaizantes. Para além dos horrendos castigos na Polé e no Potro os tormentos inquisitoriais no Brasil não foram poucos. Havia a imposição das penitências: rezar milhares de ave-marias e  pai-nossos, abjurar, pedir perdão, delatar, usar o sambenito (“saco bento”) e outras tantas obrigações a perder de vista. Mais degradante, para desonra da própria Igreja, era o confisco de todos os bens  dos denunciados.  Sem ouro, pedras preciosas e escravos, da noite para o dia os  hereges viam-se arruinados. 
 
A não-aceitação da diferença, o preconceito, o abuso de autoridade (escrivães acrescentavam “crimes” ao  processo), a obrigação de ser católico, denúncias sem investigação ou provas grassavam nas Gerais em meio à opulência gerada pelos veios dourados. Novamente, não há contexto histórico que sustente as barbaridades cometidas pela Igreja católica em nome da fé, dos bons costumes e da teoria! O simples fato de ter existido a Santa Inquisição e o que ela representou para milhares de pessoas em diferentes tempos e lugares, levando-as a um sacrifício inútil, me leva à conclusão de que, para estes casos, o perdão inexiste, mesmo que se peça.

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