Angústia

Por: Maria Luiza Salomão

“(...) E a lucidez está em fronteira com a loucura” Clarice Lispector
 
Não falamos mais “vazio existencial”, expressão comum no século XX. O vazio é mais vazio, hoje, quando sentimos o tempo esvanecer, tão rápido que mal sentimos? 
 
As crianças, com agenda lotada de atividades, e...qual é o sentido? Não será para esconder a falta do adulto capaz de lhe acompanhar por um pouco de tempo? É um compromisso falhar, ou fazer uma pausa, e descarrila a programação de atividades, que mais parece uma fila de vagões na locomotiva.  O problema é que, embora a locomotiva puxe os vagões-compromissos, ela não parece ter destino. 
 
E isso é grave. 
 
O destino confere significado ao número e qualidade do que carregam os vagões, ao peso que a locomotivalma necessita ponderar: se pode, se deve, se alcança ou, melhor ainda, se deseja carregar. 
 
Temos muita oferta para preencher o “vazio”.  A medicalização se banalizou. Mesmo que justificada, não se entra em contato com a angústia da perda de alguém amado, ou do emprego, ou da traição do amante ou do amigo próximo. Ela se torna vital se, e somente se, há areia demais para o trem-alma carregar, a ponto de deixar de funcionar.  
 
Uma infinidade de anestésicos anti-vazio: álcool; cigarro; comida; até o trabalho, com nome sofisticado em inglês; as mídias sociais. Drogas “pesadas” e ilegais.  A religião pode ser usada não como ascese espiritual, mas como jazigo para não pensar, não sentir, para vagar como zumbi. Há a compulsão ao consumo, em ter coisas, objetos, e até gentes são consumidas e descartadas, no desespero de preencher o “vazio” interior. Funcionam como drogas anestésicas, celebradas, servindo à confusão e ao isolamento, vidas no “automático”.   
 
 
Angústia, aquilo que os anestésicos evitam, é sinal de vida, não de morte. Angústia é sinal de alerta máximo: “há vida” no ser!  Não sentir angústia pode ser o prenúncio, o anúncio de que os guardiões, os nossos “anjos da guarda”, cochilam indevidamente. Angústia-sinal, como uma febre, uma tosse. 
 
Os que cruzaram a fronteira móvel, da normalidade para a loucura, não sentem angústia. Quem rodeia o psicótico sente a angústia que ele não mais sente. O louco é tomado pelo que sente; o seu sentir é a realidade concreta; tem relâmpagos de lucidez, mas a realidade lhe é intolerável, e tenta escapar enlouquecendo.  Sem angústia, o louco constrói - para si - um mundo idiossincrático, delirante, porém não compartilhado: a solidão profunda exilada do humano. 
 
O convívio humano é imperfeito, caótico, contraditório, com constantes armadilhas, e a lucidez constata que “viver é perigoso”.
 
Diferentemente do louco, o solitário sujeito sentinte e pensante vive angustiado. Percebe e registra o estar entre dois ou mais mundos; permanentemente (re)constrói, no gerúndio, a realidade possível e lúcida, ainda que pálida: significativa.  
 
A angústia é guardiã constante: há, inclusive, quem tenha mais angústia no sofrer alegria do que no sofrer sofrimento.   
 
Anestesiar a angústia pode ser decretar a morte em vida: apagar o farol em meio à tempestade no mar.      
 

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