Os sete últimos meses de Anne Frank

Por: Sônia Machiavelli

Quem  visita Amsterdam, entra  no número 263 da Prinsengratch,  percorre os espaços do que hoje é museu,  sai de lá com sensação de angústia  e perplexidade. Como foi  possível  a oito pessoas viverem naquele espaço exíguo durante 26 meses?  Sem fazer ruído ou acender luzes, falando baixo, tendo hora certa para dar descarga no vaso sanitário, comendo o que amigos mandavam de fora, nenhum contato com o exterior?  Era situação desumana. No entanto, o pior estaria  por vir.
 
No dia 4 de agosto de 1944, o chamado Anexo (era cômodo vedado  que ficava nos fundos de escritório) foi invadido por policiais nazistas e  os judeus  que ali se escondiam levados para Westerbork  e dali para Auschwitz. Deste campo de concentração, Anne Frank, sua irmã mais velha Margot e a mãe  Edith foram transferidas  para Bergen-Belsen. O pai Otto ficou. A mãe morreu sete meses depois.  Anne e sua irmã duraram mais alguns dias e morreram em 12 de março, com horas de diferença.  Era inverno, uma epidemia de tifo assolava o campo, matando  milhares de prisioneiros debilitados ao máximo.
 
Algumas semanas  após,  os prisioneiros dos campos foram libertados pelos russos. O mundo descobria o horror antes  só percebido por parcas informações. O Mal tinha nome, Holocausto,  e diante da até então impensada crueldade nazista, muitos se perguntaram onde estava Deus que permitira aquilo. Até hoje esta  indagação perturba  a alma  diante de relatos de sobreviventes,  de imagens divulgadas, da literatura que busca cumprir seu papel de resgate e alerta para que o Mal não renasça naquela dimensão.  
 
Otto Frank estava entre os que haviam milagrosamente sobrevivido. Como outros, finda a guerra  vagou pela Alemanha destruída e só chegou à Holanda muito tempo depois da libertação. Levava consigo algo precioso,  o diário que sua filha Anne escrevera desde  junho, quando completara 12 anos e o recebera de presente, até o dia em que o esconderijo fora descoberto. A garota  tinha ouvido pelo rádio que as pessoas deveriam registrar suas impressões sobre o que as pessoas estavam vivendo naquele período bélico, pois  tais depoimentos  se transformariam em documentos importantes no futuro. Assim, tolhida no esconderijo, Anne viu nas páginas em branco possibilidade de fazer da escrita um meio de expressão às suas angústias.  Não teve pudor de exibir sentimentos e no seu diário, além da crônica da guerra, registrou as manifestações  de sua sexualidade emergente,  os conflitos com a mãe, a admiração pelo pai, a atração pelo garoto que fazia  parte do grupo. Quando, em 1947, Otto Frank resolveu publicar o diário, teve receio de que estas considerações íntimas da filha não fossem bem recebidas pelos leitores.  Com a ajuda de uma editora, cortou  muitos parágrafos, que seriam readmitidos em futuras edições. O livro alcançou  de imediato  enorme  sucesso e foi traduzido para trinta idiomas.
 
Meu primeiro contato com O diário de Anne Frank  foi  na adolescência, quando li a versão com cortes; nos anos  posteriores tive  acesso à outra. Em ambas me comovi  demais, perguntando-me  como teriam sido aqueles sete  meses de Anne, sua mãe e sua irmã em Bergen-Belsen. Essa pergunta, saberia  depois, tinha sido  feita por muitos. E fora  respondida de forma estética pelo cineasta Willy Lindwer no documentário  Os sete últimos meses de Anne Frank, que ganhou a versão literária que trago hoje para esses comentários.
 
A linguagem do documentário é diferente da literária. O primeiro coloca ênfase nas imagens; a segunda, nas palavras. Ao transferir um a outra, perde-se alguma coisa e isso ficou claro para mim ao término da leitura. O autor não  conseguiu  conferir homogeneidade às narrativas testemunhais, de maneira  que os discursos falham enquanto forma. Mas o conteúdo de cada narrativa é tão impressionante que  nos faz esquecer a ausência do tônus literário.
 
Os Sete Últimos Meses de Anne Frank mostra, através do relato de seis mulheres que tiveram algum contato com  a adolescente, a trágica trajetória  de judeus levados aos campos de concentração. Hannah, Janny, Rachel, Bloeme, Lenie e Ronnie  não tiveram relação próxima de amizade com a garota, isso precisa ser dito para que não se criem expectativas de leitura que podem ser frustrantes. Mas, usando  um artifício interessante, Willy Lindwer leva as entrevistadas a recontar os martírios pelos quais passaram, e, através de seu olhar, o leitor conhece os níveis de desumanização que nortearam a proposta da “Solução Final”, responsável pela morte de milhões. Os relatos individuais fixam experiências coletivas marcadas pela barbárie. É pelo flagelo sofrido e relatado de forma  crua que vamos formando uma ideia do como devem  ter sido os últimos sete meses de  vida de Anne.
 
As mulheres entrevistadas informam  que ao chegar ao primeiro campo, o grupo de Anne se separou e parte dele nunca mais foi visto. Vemos Anne sendo levada com a mãe e a irmã para Bergen-Belsen. Tendo o cabelo raspado. Dormindo num arremedo de cama com a irmã. Padecendo fome e sede. Recebendo  única ração diária.  Roubando comida. Ajudando a irmã adoentada. Arriscando-se a ser fuzilada ao furar uma fila. Perguntando pela mãe que desaparecera. Na cena final de sua vida, com uma espécie de cobertor sobre o corpo nu, a cabeça raspada e inchada por causa da sarna, com febre alta por conta do tifo, ela tem uma última crise de alucinação.
 
A soma de todos os depoimentos deixa entrever de forma clara que Anne eclipsou-se ao chegar a Bergen-Belsen. Ela, que amava as palavras e escrevera  um diário de mais de duzentas páginas, falava pouco ou nada. Movia-se devagar e ficava quieta. Enquanto a mãe vive, a menina procura burlar a vigilância para estar junto a ela e à irmã. Não consegue interagir com as outras prisioneiras, mesmo com as seis com quem teve breves diálogos. 
 
Algo importante que os depoimentos desvelam ao leitor atento às entrelinhas, é que foi fundamental  ligar-se a um grupo para preservar um mínimo de sanidade em Bergen-Belsen. Quando uma mulher caía, outra retirava fiapos de esperança de onde qualquer mortal em condições normais acharia impossível.  Emociona até às lágrimas a cena em que um grupo de mulheres sujas, famintas e sedentas reúne-se num velho galpão em noite fria. Em andrajos, sentadas em círculo, elas sentem o peso do silêncio.  Mas de repente  a mais velha começa a entoar, numa voz linda, uma canção popular conhecida por todos.  Ouvindo-a, cada uma consegue resgatar alguma força para acreditar numa notícia que vagamente começara a circular pelo campo: os russos estavam chegando. A luta era para sobreviver algumas horas e sair do Inferno. Anne e sua irmã não  conseguiram. Ronnie, Lenie, Bloeme, Rachel, Janny e Hanne tiveram melhor sorte. E contaram, décadas depois, a  experiência transformadora a Willy Lindwer. 
 
Vivemos tempos de intolerância máxima em muitos lugares de nosso mundo. Ler um livro como este de Willy Lindwer é oportunidade para repensar o perigo representado pela incapacidade de aceitar o outro em todas as suas diferenças.

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