O Livro das Citações

Por: Sônia Machiavelli

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“ As palavras pertencem metade a quem as fala, metade a quem as ouve”, escreveu Montaigne em 1592 no Ensaios. Ao ler esta frase do pensador francês o então jovem Eduardo Giannetti a grifou, assim como o fez a outras do mesmo escritor que permaneceu em alto conceito no seu espírito. Ao compor O Livro das Citações- Um breviário de ideias replicantes, publicado pela Cia das Letras em 2008, levou-as para suas páginas. São vinte e cinco as reflexões de Montaigne que Giannetti escolheu para reuni-las a outras de clássicos como Voltaire, Vieira, Unamuno, Stendhal, Shakespeare, Schiller, Novalis, Thomas More, Oscar Wilde, a dúzias de gregos relevantes, a outras de antigos e modernos que cravaram com palavras simples, em frases curtas, um verdadeiro sistema de pensamento. São autores que permanecem graças, em parte, a uma admirável capacidade de síntese para explicar em poucas linhas o que muitos traduzem em páginas nebulosas. Em todas as épocas os aforistas foram poucos. No Brasil lembro-me, no momento em que escrevo, de Nelson Rodrigues, Sérgio Porto, Ruy Castro, Millor Fernandes, Roberto Duailibi. E do Barão de Itararé, claro.

Leitor desde criancinha, Eduardo Giannetti, 58, desenvolveu o hábito de grifar nas páginas que lia os trechos que mais o impressionavam. Foram necessárias mais de três décadas para reunir o vasto material que alicerçou o livro em epígrafe. Levantar tudo o que tinha destacado e selecionar o que priorizar, foi tarefa custosa de edição. Mas o trabalho foi brilhante. Precisamente organizada em seu ordenamento por capítulos, a obra nos enseja a sensação de ler não uma relação de citações, mas sim um conjunto de ideias que se encaixam e formam um todo. Muito além dos Frase Books que tanto sucesso fazem entre os de língua inglesa, O Livro das Citações resplandece em sua característica bem distintiva: constrói-se, no modo de agrupamento e disposição das citações, aforismos e reflexões, em formato de compêndio de ideias. Para começar, à guisa de prefácio próprio, o autor reúne dezenas de citações sobre o conceito de prefácio, dando ao capítulo o título Da inutilidade dos prefácios , onde podemos ler sobre o gênero esta pedra lapidada por Nietzsche: “O autor tem direito ao prefácio; mas ao leitor pertence o posfácio.”

Conjunto de feixes temáticos, o livro agrupa quatro grandes temas: o uso da linguagem, a busca do saber, a conduta individual, a ética cívica. A viagem proporcionada ao leitor que caminha pelos 36 capítulos, em ordem ou aleatoriamente, é marcada por descobertas, se não por reencontros admiráveis. São séculos de contribuições à filosofia, à ciência, à literatura. Destaco algumas.

“A leitura é uma operação livre; ninguém pode me prescrever como e o que lerei” (Novalis, 1798). “Você não conseguirá pensar decentemente se não quiser ferir-se a si próprio” (Wittgenstein, 1931). “A simplicidade é o selo da verdade” (Schopenhauer, 1851). “A verdade sai do poço, sem indagar quem se acha à borda” (Machado de Assis, 1865). “O que permanece, os poetas o fundam” (Holderin, 1803). Um homem que ousa desperdiçar uma hora de seu tempo não descobriu o valor da vida (Darwin, 1836). “Cada ser humano é uma pequena sociedade” (Cioran, 1973). “Existem duas tragédias na vida: uma é não conquistar o que seu coração deseja; a outra é conquistar”(Bernard Shaw, 1903). “A pobreza resulta do aumento dos desejos do homem, não da diminuição de sua propriedade” (Aristóteles, séc. IV A.C.).”Existem poucas coisas que nós desejaríamos de forma intensa se soubéssemos realmente o que queremos” (La Rochefoucauld, 1665). “Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade” (Oswald de Andrade, 1928). “ A felicidade é a satisfação ulterior de um desejo pré-histórico. Eis por que a riqueza proporciona tão pouca felicidade; o dinheiro não é um desejo infantil” (Freud, 1902).

Eis aí pequena amostra do que o leitor pode encontrar nas 458 páginas do livro. Sobre o autor, fica até difícil pinçar créditos com os quais contextualizar este pensador sofisticado. Mineiro de Belo Horizonte, é economista formado na USP, com doutorado em Cambridge, onde foi professor por muitos anos. Atualmente é professor do INSPER, Instituto de Ensino e Pesquisa. Autor de diversos livros, ganhou dois prêmios Jabuti: em 1995 com Vícios privados, benefícios públicos? (Cia das Letras) e, no ano seguinte, com As partes & o todo (Siciliano). É encontrado assiduamente nos jornais e revistas de grande circulação, seja como entrevistado, seja como articulista. Convidado para palestras, tem percorrido o Brasil, especialmente desde a última campanha eleitoral para a Presidência da República, quando apoiou o nome de Marina Silva .

Penso que O Livro das Citações deveria fazer parte de toda biblioteca de leitor que ainda tenha no humanismo uma esperança para o difícil entendimento da vida no planeta, neste momento em que o homem parece ter deixado de ser a medida de todas as coisas. Esta obra se tornou, desde algum tempo, meu livro de cabeceira. Abro ao acaso e lá encontro uma frase que pode ter cem ou mil anos: ela sempre será motivo para repensar valores atemporais. 

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