LAÇOS

Por: Maria Luiza Salomão

Para dr Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, Eunice Nishikawa, Orlando Hardt,  Vera Montagna, Marisa Mélega, Maria Angélica Cabral (Lecy) e Telma Ferraracio. 
 
Tenho um grupo que me custa doze horas de viagem, corridas compridas de táxi pela Capital (no espantoso trânsito paulistano), tudo por hora e meia de conversa. Extraordinariamente proveitoso! 
 
A raridade: encontrar gentes que sincronizam ideias e sentimentos. O esforço para o que nos acresce o humor, o bom convívio: sábio sereno amigo. Portas abertas para absorver o que generosamente o outro nos oferece.  Avoluma a gratidão pela vida e pelos laços humanos. 
 
Ontem, o encontro quinzenal paulistano se deu em risos.  Eu me vi engraçada, eu, tão séria sou. Como é bom rir: ato de entrega, de inteligência emocional e, mais ainda, de  inteligência social. 
 
Para rir precisamos capturar algo do alheio, ser intuitivamente sensíveis na percepção do risível. Rir é compartilhar emoções e histórias reconhecíveis na sua essência.  Não é pouco desencadear o riso:  comediantes sabem da arte necessária. É antídoto contra o fundamentalismo, a intolerância às diferenças. Quantas vezes não toleramos aspectos do nosso próprio eu. Rir de si mesmo é possível libertação.  
 
Quem não gosta de soltar (observe o verbo) gargalhadas?  Liberar ternura bem humorada?  Há cumplicidade, familiaridade de valores comunais.  Não se ri fácil do que nos repulsa, do que nos é avesso.  
 
Rir é negócio profundo.  Um dia, peguei um livrinho que se propunha a desafiar o leitor a fazer coisas que ele costumeiramente nunca faz.  Topei a brincadeira. Primeira tarefa: contar três piadas para grupos diferentes de pessoas. Pronto! Ainda não consegui chegar à segunda tarefa. Primeiro encontrar a piada que me faz rir; segundo, decorá-la; terceiro, ensaiar como contá-la: ser atriz. Já comecei a contar uma piada e esqueci um pedaço ou, pior ainda, não cheguei ao fim da piada, ou ri sozinha, “mico” total!  Como criar clímax? Enfim...já me entenderam! Não sei contar piadas. Mas, envelhecendo, em grupos acolhedores, me descubro engraçada na narrativa da vida cotidiana mesmo. A vida é mesmo cheia de graça.
 
Piada segue a trilha da poesia.  Com poesia eu me dou bem. Eu leio! Decoro alguns versos, mas sempre posso ler os que eu esqueço na sequência, ou nas precisas palavras.  Poesia é abracadabra: lê-se e eis o encantamento. Lê-se o poema e sentidos nunca dantes sentidos florescem. 
 
A graça – tanto quanto a piada pronta - produz esse impacto. O susto. A suspensão dos sentidos. O som vindo das entranhas, do ventre, do abdômen, cada um tem um timbre ao gargalhar, cria uma cascata de sinos graves e agudos. A alma sacode o corpo, acorda a superfície. 
 
Nada mais humano do que o riso, no conclave de duas ou mais pessoas que sabem as chaves do não dito, ou do dito velado, a pressupor o ouvinte capaz de captá-lo.  
 
Fortes laços humanos: quem ri junto, quem compartilha versos. Laços de profundo apreço. 

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