Caminho da biblioteca

Por: Angela Gasparetto

Estaciono o carro e caminho pela alameda de pedra. Assim que salto, já sinto o perfume das árvores quase centenárias.

É minha visita de quinzenal à Biblioteca Municipal. É o meu reencontro com o meu eu. Entrar neste lugar significa uma volta ao meu universo primário. O universo das Letras, mas mais que isto, é como voltar a um útero materno. Aqui me encaixo.

Caminho pelo seu corredor antigo, de prédio destinado aos seminaristas. Percorro estes caminhos do saber, este templo dos livros. Neste caminhar, meu eu volta no tempo e se aconchega.

Descendo para o pátio do térreo, olho para o ipê florido neste começo de primavera. Suas raízes fincam o solo. Ele está lá há quase meio século. Espreita os seminaristas, agora espreita leitores contumazes como eu.

Quando adentro a biblioteca, uma paz enorme me acomete. Estou no meu habitat natural. Estou onde a tranquilidade do ambiente casa com a minha índole interior.

Caminho em frente às estandes de livros. . Eu os acaricio. Eu os reencontro. Eu os quero sempre comigo. Logo ali está Fernando Sabino. Dou um meio sorriso. Fernando Sabino sempre me alegra, pois nasceu homem e morreu menino.

Rubem Braga me enternece e Érico Veríssimo é meu amigo de anos. Machado de Assis, o mestre dos mestres fica em uma prateleira destinada aos gênios. Merecido, penso!

Caminho mais um pouco e reencontro meu amigo de noites solitárias, Graciliano Ramos. Meu salvador da loucura latente, de uma adolescência fugaz, onde o mundo te soterra e você possui exíguos recursos cruzar a travessia.

Aqui neste lugar de estórias, sinto o reencontro com estes velhos amigos da adolescência, da fase adulta e agora madura. Um escritor nunca morre. É um clichê. Mas é um clichê devido à literatura. Quem escreve, faz filhos, estes filhos vivem eternamente, cruzam gerações, falam com o futuro.

Passeio pela biblioteca. Admiro os livros com reverência. Quando vejo, sem perceber estou de mãos trançadas atrás em sinal de respeito.

Olho para os jovens sentados a ler ou a pesquisar nos computadores e penso: Para mim, a Biblioteca é o lugar de aconchego mais seguro, mais próximo da paz buscada por tantas pessoas durante a vida. Se você deixar, a literatura te salva. Literalmente me salvou.

Aqui, neste lugar de livros, nunca me sinto só. Os livros sempre estarão lá para me confortar, os livros sempre estarão lá para dar um norte de beleza e sonhos, tão imprescindíveis nesta estrada chamada vida.
 

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