Transformações

Por: Maria Luiza Salomão

Pensava, até recentemente, em mudança como ato de metamorfose, de transformação, que implica alteração da forma. Se algo permanece na mudança, deveria ser, pensava eu, algo da substância do ser (coisa meio platônica). Por exemplo, o envelhecimento. Há mudanças na forma do corpo, quando criança, adolescente e na velhice. As rugas, o peso corporal que deforma, o branquear dos cabelos, até mesmo as expressões faciais viciadas depois de muitas e variadas experiências.

O que seriam essas camadas que encobriram o que sempre foi, o que sempre existiu, como ruínas enterradas por camadas geológicas? O que, verdadeiramente, se alterou? As camadas bio-psico-sociais? O “eu” profundo? E a que “eu” me refiro se altero a camada, e, multiplamente, outra e mais outra? O que fui como criança, o que fui como adolescente, o que fui no ano de 1999?

Quem já envelheceu um bom número de décadas, sabe (sente, tem a sensação de) que guarda essências não transformáveis, quase intactas, dentro de si. Sons, imagens, sabores recordados como se nada houvesse tocado aquele sentir, aquele pensar, aquela sensação primeira das coisas. Mas também sente (tem a sensação de) que não é a mesma pessoa, ou é, nessa circunstância. Mas em outra circunstância não.

Somos múltiplos. Habitando mundos simultâneos, diferentemente, que não se misturam, não intercambiam. Mistério do ser vivente, que se cria e se recria. Como demiurgos, podemos reescrever nossa história, alterar nosso futuro. E ainda mais, carregados (surpreendidos, colhidos) pelo acaso, acabamos alterados por circunstâncias que não dominamos, não controlamos, nem (re)conhecemos, por vezes

Gradativamente, percebemos que o chamado mundo virtual não é um potencial vir-a-ser, mas é uma outra realidade, tão vivível quanto essa, que nos faz acordar de manhã, tomar um café, e ir para o trabalho.

Ao visitarmos a página no facebook, vivemos emoções; informados e enformados em sutis e em violentas sensações corpóreas e psíquicas. Nosso espírito se fia no que vê, no que sente o corpo reagir a; toma como real tudo o que corpo e alma vivem. Nosso espírito não descansa, nem tem pouso fixo.

Penso nas próximas gerações, que virtualizam suas experiências em um limite tal que gerações mais antigas nunca viveram, ou podem não chegar a viver, por terem sido informados e enformados diferentemente.

Ainda temos uma reserva ecológica de espírito que possa sobreviver ou refratar sentidos outros para que o espírito humano evolua? Mas, o que é um espírito a evoluir? É possível pensar a evolução em termos quantitativos e em linha reta? O tempo, cada vez mais, no cotidiano e na física, na biologia, é da ordem do prisma, e não de uma linha reta, contínua. Nossas bases estão em planos diferentes, quando penso em mim como criança, como adolescente, quando me casei, quando tive um filho?

Não mais generalidades quando falamos de alma: precisamos dar conta das diferenças, refratadas em prismáticos eus.

Como pensar a tamanha complexidade que habita a singular presença, virtualizada, diferenciada, de cada ser no mundo?
 

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