Heliodora, possibilidade de uma tragédia

Por: Mirto Felipim

poderia ser a última vez, mas ela dissera que era improvável. largou-se no sofá à espera que sua estrela o guiasse.
 
restava apenas um pouco da lucidez infeliz que ainda o mantinha parcamente atento. juntou o resto dos pensamentos e concluiu que nem valeria a pena continuar a matança de todas as esperanças, mesmo porque não havia mais nenhuma.
 
Heliodora ainda insistia em martelar sua ilusão, semeando minhocas corrosivas no estômago, sempre que lhe envenenava o coração.
 
poderia mesmo matá-la, mas andava tão frouxo e sentimental, que nem isso o animava mais. tinha apenas a arma, mas sem forças e agora nem mesmo coragem para atos desatinados.
tentou tirá-la do copo da fumaça da escuridão tomar-lhe a chave de volta trancá-la para sempre no esquecimento e se libertar do olhar certeiro que na cegueira dos olhos fechados mais luzia e instigava o desejo de tê-la por perto participando de todas as conjurações de sua vida.
 
contudo ao deixá-la daquela vez dera por definitivo o ato. lamentara no momento não tê-la matado. agora não era mais possível. na inconfidência de suas entranhadas vidas, tornara-se mais transparente do que o aconselhável e portanto o mais vulnerável dos dois.
 
Heliodora o contemplava com suas poesias patéticas, pequenas traições, injetando insanas profecias e lógicas dementes que acabaram por conduzi-lo ao estranho mundo de nadas concretos.
 
era a última vez que a encontrara e nunca mais a encontraria, mesmo querendo eliminá-la. a última palavra dela ainda passeia por sua cabeça: “improvável”.
 
no seu recente degredo, sente-se liberto da obrigação de amá-la e odiá-la, sem saber em qual ordem colocar os sentimentos.
 
senta-se no sofá, afrouxa os nós do sapato, coloca a arma inútil no chão, sentindo-se definitivamente solto de sua obrigação, quando percebe as duas voltas da chave destravando a porta.  

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